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Africa CDC diz que mais de US$ 700 milhões da resposta ao ebola na RD Congo não têm destino conhecido

Dos US$ 962 milhões que doadores repassaram a organizações, pouco mais de US$ 200 milhões foram rastreados; menos de 30% dos parceiros apareceram para prestar contas

Por Redação RecortNews
Mapa da resposta emergencial de Médicos Sem Fronteiras ao surto de ebola do tipo Bundibugyo no leste da RD Congo e em Uganda, com a situação de julho de 2026: pontos vermelhos marcam centros de tratamento e amarelos, unidades de isolamento.
Mapa da resposta emergencial de Médicos Sem Fronteiras ao surto de ebola do tipo Bundibugyo no leste da RD Congo e em Uganda, com a situação de julho de 2026: pontos vermelhos marcam centros de tratamento e amarelos, unidades de isolamento.Foto: Sophie Müller/Wikimedia Commons, CC BY 4.0

A conta que não fecha

O Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC) e as autoridades sanitárias da República Democrática do Congo cruzaram os relatórios financeiros das organizações que executam a resposta ao ebola no país e não conseguiram estabelecer o destino de mais de US$ 700 milhões.

Pela contabilidade do órgão continental, os doadores repassaram cerca de US$ 962 milhões — não ao governo congolês, mas diretamente às organizações que tocam a operação em campo. O exercício conjunto de verificação localizou pouco mais de US$ 200 milhões dentro das estruturas da resposta. O resto não tem rastro documentado.

Entre os parceiros que apresentaram números, o quadro declarado é este: US$ 228 milhões recebidos, US$ 127 milhões gastos e cerca de US$ 100 milhões ainda em caixa. Mas essa amostra é pequena: menos de 30% das organizações executoras compareceram à reunião convocada pelo Ministério da Saúde para prestar contas.

"Cedo para falar de desvio"

O diretor-geral do Africa CDC, Jean Kaseya, disse à Reuters que é cedo para falar de desvio de dinheiro, e descreveu a lacuna como um problema grave de transparência e de prestação de contas. Ele advertiu que organizações que não cumprirem a exigência podem ser impedidas de operar na RD Congo e colocadas em lista restritiva em todo o continente.

O ministro da Saúde congolês, Samuel-Roger Kamba, apoiou a cobrança em publicação na rede X. As organizações, afirmou, precisam informar ao ministério de onde vem o dinheiro, a que ele se destina e em que estágio está a execução.

Respostas anteriores ao ebola na RD Congo já foram alvo de acusações de favorecimento e corrupção. É esse histórico que explica por que o Africa CDC trata relatório ausente como risco, e não como atraso burocrático: a diferença entre os US$ 962 milhões doados e os US$ 200 milhões rastreados não é prova de crime, mas é o tamanho exato do que ninguém consegue auditar.

Um surto que já é o segundo maior da história

O surto é causado pelo ebolavírus Bundibugyo (BDBV), para o qual não existe vacina nem tratamento aprovado — diferença decisiva em relação às epidemias recentes de ebola-Zaire na mesma região, em que a vacinação em anel foi a principal ferramenta de contenção. O governo congolês confirmou a epidemia em 15 de maio deste ano.

Desde então, passou de 9.000 casos e 4.000 mortes, o que o torna o segundo maior surto de ebola já registrado, atrás apenas da epidemia da África Ocidental de 2013 a 2016.

Na quinta-feira, dois funcionários da área de saúde disseram à Reuters que a doença chegou à província do Ubangi do Norte, na fronteira com a República Centro-Africana, com dois casos — seria a oitava província atingida. As autoridades congolesas ainda não anunciaram oficialmente esses casos.

Quênia confirma o terceiro caso

O Quênia, que registrou seus primeiros casos de ebola na história neste surto, confirmou nesta sexta-feira o terceiro: uma mulher de 65 anos, parente próxima do primeiro paciente, que morreu na noite de 5 de outubro. Ela já estava em quarentena quando adoeceu, o que permitiu a detecção precoce.

Das 130 pessoas identificadas como contato do primeiro caso — família, amigos, profissionais de saúde e passageiros do mesmo voo —, 127 estão em quarentena, com medição diária de temperatura e de sintomas por 21 dias.

"Estar em quarentena significa que a família e o público em geral ficam mais protegidos da exposição ao vírus", disse Neema Rusibamayila Kimambo, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) no Quênia. Para o diretor-geral de saúde do ministério queniano, Patrick Amoth, "é a resposta funcionando como foi desenhada". O ministério afirma não haver evidência de transmissão comunitária no país.

A OMS entregou ao Quênia insumos avaliados em cerca de US$ 70 mil — equipamentos de proteção, kits de teste e termômetros infravermelhos — e apoiou o treinamento de quase 5 mil profissionais de saúde. O país começou a se preparar em maio, quando o surto foi declarado na RD Congo. A organização recomenda não fechar fronteiras nem restringir o comércio, e o ministério queniano diz que não há restrição a viagens, comércio ou aglomerações.

Com informações da Reuters, da Africanews, do Africa CDC e da Organização Mundial da Saúde.