Mary Amiti, Sebastian Heise e David E. Weinstein, economistas do Federal Reserve Bank of New York (a unidade do banco central americano em Nova York), publicaram em 6 de outubro de 2026 uma explicação de quanto tempo as tarifas americanas levam para chegar ao preço que as famílias do país pagam. A resposta, resumindo o Staff Report 1201: para cada aumento de 1 ponto percentual na tarifa média, o preço dos bens de consumo sobe cerca de 0,25% depois de um ano.
Cerca de dois terços desse efeito é direto, pelos produtos importados. O outro terço é indireto — o preço dos bens feitos nos Estados Unidos que usam insumos importados, ou que competem com importados.
Três etapas, três velocidades
O estudo separa o percurso em etapas, e elas correm em ritmos muito diferentes.
Na fronteira, cerca de 90% da tarifa passa para o preço de importação americano, e a maior parte já no primeiro mês. A desvalorização do dólar no período não altera essa estimativa.
Na fábrica, quase nada acontece por seis meses. Depois disso, o efeito sobre o preço ao produtor doméstico praticamente dobra nos seis meses seguintes. Entre os dois mecanismos em jogo, os autores encontram um canal de custo marginal — o produtor americano pagando mais pelo insumo importado — maior do que o canal estratégico, em que a empresa doméstica apenas sobe o preço porque o concorrente importado encareceu.
No caixa, uma alta de 10% nos preços de importação e ao produtor eleva o preço no varejo em 5,6%. A diferença é a distribuição: frete, armazenagem e margem de varejo respondem por cerca de metade do que o consumidor paga, e esses custos não sobem com a tarifa.
Somando tudo, a ilustração dos autores é a de uma tarifa de 10% sobre todas as importações elevando o preço dos bens de consumo em cerca de 2,6% depois de 12 meses — com metade do efeito direto aparecendo em até 3 meses e todo ele em até 6, enquanto o efeito indireto mais que dobra entre o sexto e o décimo segundo mês.
O que as tarifas de 2025 e 2026 fizeram
Aplicadas ao caso real, as estimativas dizem que as tarifas tinham somado 2,9 pontos percentuais à inflação de bens até fevereiro de 2026. Sem elas, escrevem os autores, o preço dos bens teria caído ligeiramente no período. O efeito sobre o nível de preços dos bens chegou ao pico de quase 3% naquele mês, com a parcela indireta em torno de 30%.
Dali em diante a aritmética se inverte, e a distinção entre nível de preços e taxa de inflação é o que faz o trabalho. Os pesquisadores projetam que o efeito sobre o nível de preços recue para cerca de 2% em agosto de 2026, depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou, em 20 de fevereiro de 2026, as tarifas impostas com base no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA, a lei americana de poderes econômicos de emergência) e o governo as substituiu, no mesmo dia, por uma sobretaxa de 10% amparada na Section 122 do Trade Act de 1974 (a lei de comércio americana). A contribuição das tarifas para a inflação de 12 meses cai a praticamente zero em agosto de 2026 e depois fica negativa, à medida que as altas de 2025 saem da base de comparação — antes de voltar a ficar ligeiramente positiva em meados de 2027 por causa das tarifas sobre o Canadá. A projeção mantém as tarifas nos níveis do fim de setembro de 2026 e acrescenta o aumento previsto para janeiro de 2027 sobre automóveis canadenses.
A diferença importa para a leitura dos números. Inflação voltando ao normal não é preço voltando a cair; é o preço que subiu ficando onde está e parando ali.
O que o estudo não cobre
A amostra é de 67 categorias de bens, excluído o petróleo. Serviços — cerca de dois terços do que o consumidor americano de fato gasta — ficam de fora. E o método compara bens mais expostos às tarifas com bens menos expostos, mantendo fixas as condições gerais da economia, o que significa que ele não diz quanto do movimento mais amplo de preços no período foi causado pelas tarifas. Os autores observam que as tarifas também podem ter amplificado ou compensado essas forças gerais.
Uma ressalva a mais para o leitor brasileiro: a estimativa é construída sobre variações da tarifa média das importações americanas. Ela não serve para ler diretamente o que uma alíquota específica por país — os 25% aplicados aos produtos brasileiros, por exemplo — faz com o preço na prateleira americana, que depende do peso daquele país nas categorias envolvidas.
Com informações do Liberty Street Economics, do Federal Reserve Bank of New York, e do Staff Report 1201, com a cronologia judicial das tarifas a partir das notas técnicas da banca Ward and Smith.




