A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, deve contribuir com cerca de 30 milímetros de elevação do nível do mar até 2100 — aproximadamente o dobro das estimativas anteriores, e isso mesmo que não haja aquecimento global adicional. É a conclusão de um estudo publicado na revista Nature Communications e divulgado em 15 de outubro.
O trabalho foi liderado pela Universidade da Califórnia em Irvine, com participação do Jet Propulsion Laboratory (JPL) da Nasa. O autor principal é Mattia Poinelli, hoje cientista de projeto na UCLA e à época pesquisador de ciências do sistema terrestre em Irvine; o glaciologista Eric Rignot, da mesma universidade, assina como coautor.
O que mudou no modelo
A diferença não está em um novo aquecimento observado, mas em como o derretimento é descrito.
Os modelos convencionais tratam a linha de encalhe — o ponto em que o gelo deixa de se apoiar no leito rochoso e passa a flutuar — como uma fronteira estreita e relativamente estável. Dados de satélite mostram que, na prática, existe uma zona de encalhe de vários quilômetros de largura, onde a água do mar entra e sai no ritmo das marés.
Esse vaivém levanta e abaixa o gelo em um processo chamado bombeamento de maré, que permite à água oceânica mais quente alcançar vários quilômetros sob a geleira e derretê-la por baixo. A equipe recalibrou o modelo com mais de 20 anos de observações de radar de abertura sintética dos satélites ICEYE e simulou uma zona de encalhe de 4 a 6 quilômetros. Reconstruindo o período dos anos 1990 até hoje, o modelo revisado aponta mudanças quatro vezes maiores do que as captadas pelos modelos tradicionais.
A cordilheira que segura o gelo
O tronco principal da Thwaites hoje é contido por uma elevação submarina de rocha, a cordilheira Mouginot. O derretimento na zona de encalhe acelera o desprendimento do gelo nesse apoio, e as simulações indicam 60% de probabilidade de que a geleira se solte dessa barreira até o fim do século. Depois disso, o recuo seguiria em direção à cordilheira seguinte, a South Ridge.
Alguns números para dimensionar o que está em jogo:
- a Thwaites tem cerca de 192 mil km², área equivalente à do Senegal;
- responde hoje por aproximadamente 4% da elevação global do nível do mar;
- perdeu mais de 1.000 bilhões de toneladas de gelo desde 2000 e segue perdendo cerca de 50 bilhões de toneladas por ano, segundo levantamento citado pela Al Jazeera;
- um colapso total elevaria o nível do mar em torno de 65 centímetros — e, como a geleira ajuda a conter o manto de gelo da Antártida Ocidental, cerca de 14 vezes maior, o efeito final poderia chegar a vários metros.
Cada centímetro de elevação do mar expõe cerca de 6 milhões de pessoas no mundo a inundações costeiras.
O que dizem os cientistas
Rignot resume o ponto central: pelos danos já causados, "podemos esperar níveis do mar mais altos no futuro" mesmo com corte de emissões.
A recepção entre pesquisadores que não participaram do estudo mistura interesse e cautela. Ted Scambos, da Universidade do Colorado em Boulder, afirmou que os resultados podem ser "um verdadeiro divisor de águas para a previsão do nível do mar a partir da Thwaites". Robert Larter, do British Antarctic Survey, ponderou que "há muito que ainda precisamos descobrir sobre os processos da zona de encalhe", o que mantém as projeções sob incerteza.
É nesse ponto que o estudo encontra seu próprio limite: ele recalcula o mecanismo, mas não fecha a conta do volume de gelo que será perdido. A equipe planeja ir à geleira em 2028 para instalar equipamentos capazes de medir diretamente a circulação de água do mar sob o gelo.
Em julho, um grupo do British Antarctic Survey publicou na Geophysical Research Letters a conclusão de que a Thwaites continuará perdendo gelo por pelo menos 150 anos, mesmo em um cenário de resfriamento extremo do oceano.
Com informações da revista Nature Communications, da Al Jazeera e da Interesting Engineering.




