A França teve neste sábado, 17 de outubro, a maior jornada de protestos do ano contra o custo de vida. O Ministério do Interior contou 550 mil manifestantes em todo o país, dos quais 110 mil em Paris. Os organizadores falam em 800 mil. O dia terminou com cerca de 400 detenções, prefeituras invadidas em quatro cidades e a prefeitura de Limoges — monumento histórico inaugurado em 1883 — destruída por um incêndio.
A convocação partiu da central sindical CGT, de organizações estudantis como a Union étudiante e de um site ligado aos coletes amarelos. Nas ruas havia estudantes, secundaristas, sindicalistas, ativistas do clima e antigos coletes amarelos — oito anos depois do início daquele movimento. A CGT pediu que o governo responda "imediatamente às reivindicações sociais" e pare de reprimir manifestantes.
Os números do dia
As contagens divergiram ao longo da tarde, o que é usual na França, onde polícia e sindicatos publicam totais próprios:
- Ministério do Interior: 550 mil em todo o país, 110 mil deles em Paris, segundo o ministro Laurent Nuñez.
- Organizadores: 800 mil. A CGT havia anunciado mais de 500 mil às 17h e depois alinhou-se ao número maior.
- Atos: a CGT contabilizou 1.750 concentrações e passeatas. Antes do dia, cerca de 500 ações estavam previstas.
- No meio do dia: a polícia registrava 32.800 pessoas em 140 ações fora da região parisiense.
- Às 15h: 20 mil em Lyon, 20 mil em Nantes e 10 mil em Rennes.
Em Paris, o cortejo saiu da Place de la République em direção à Place de Clichy. Houve saques nas Galeries Lafayette, e a prefeita da cidade descreveu ruas "metodicamente devastadas". Cerca de trinta pessoas tentaram atacar a prisão da Santé, e quatro foram detidas.
As detenções subiram ao longo do dia: 223 às 14h, 133 delas em Paris; 191 só na capital às 18h, cerca de 90% de adultos; e perto de 400 no total à noite.
Ao menos 60 agentes de segurança ficaram feridos. Dois foram levados inconscientes ao hospital, entre eles um policial parisiense em estado grave após hemorragia interna. Em Saint-Étienne, um manifestante perdeu uma das mãos ao pegar uma granada, e o ministério informou que há investigação em curso.
Limoges perdeu o campanile
O caso mais grave foi em Limoges. Por volta das 17h45, ao fim de uma passeata até então tranquila, um grupo quebrou janelas e ateou fogo ao andar térreo da prefeitura. Antes das 19h as chamas chegaram ao telhado da ala esquerda e, mais tarde, ao campanile. A torre de 43 metros, que abrigava o sino republicano e é o símbolo arquitetônico da cidade, desabou na noite de sábado.
O prédio, aberto em 1883 e tombado como monumento histórico desde 1975, teve fachadas, telhados e estrutura em grande parte perdidos, segundo o prefeito do departamento. A restauração do conjunto estava orçada em 4 milhões de euros antes do incêndio. Entre as peças atingidas estão as alegorias em pedra de Tony Noël na fachada, quatro medalhões em mosaico veneziano da oficina Facchina e doze brasões em porcelana esmaltada da Haviland no interior.
"É um monumento que queima, mas não a República", disse o prefeito de Limoges, Guillaume Guérin, do partido Les Républicains, ao anunciar que a cidade iria à Justiça: "As ações penais virão."
Houve danos em outras cidades. Em Bordeaux, a residência oficial do prefeito do departamento foi saqueada e a unidade de elite RAID foi acionada. Em Lyon, uma unidade do escritório de turismo foi depredada e queimada. Em Lille e em Marselha, manifestantes entraram nas prefeituras; em Marselha, um posto da guarda municipal foi atacado e dezenas de lojas saqueadas, e o prefeito Benoît Payan pediu reforço urgente.
Governo culpa a ultraesquerda, oposição divide a conta
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu reuniu uma célula de crise interministerial e denunciou "uma violência de extrema intensidade", afirmando que "grupos de ultraesquerda organizaram a violência em várias cidades da França". Nuñez responsabilizou grupos radicais de extrema esquerda pelos ataques a prédios públicos e delegacias.
O presidente Emmanuel Macron escreveu que não há "nenhum lugar para a violência em nossa República" e prometeu que o país faria frente aos que chamou de "semeadores do caos".
À direita, Bruno Retailleau, Édouard Philippe e Marine Le Pen pediram resposta penal dura; Le Pen acusou o partido A França Insubmissa (LFI) de encorajar a desordem. À esquerda, Jean-Luc Mélenchon e Marine Tondelier criticaram a estratégia de ordem pública do governo, que, segundo eles, alimentou a tensão. O socialista Olivier Faure resumiu a disputa de narrativa ao dizer que o governo "joga uma cortina de gás lacrimogêneo para melhor mascarar as reivindicações legítimas", ao mesmo tempo que condenou os que depredaram um movimento "conduzido por secundaristas e universitários".
O número do Interior e o dos organizadores contam a mesma história por caminhos diferentes: mesmo na contagem oficial, a mobilização deste sábado é a maior do ano, e ocorre com um governo recém-formado tentando fechar o orçamento. É esse o ponto que a discussão sobre violência tende a cobrir.
Com informações de L'Express, Europe 1 e Aquitaine Online.




