A Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) afirmou neste sábado, 17 de outubro, que um superpetroleiro carregado com mais de 2 milhões de barris de petróleo bruto explodiu e pegou fogo depois de atingir uma mina naval no estreito de Ormuz. No mesmo comunicado, a força declarou que "o estreito de Ormuz está fechado".
Segundo a versão iraniana, o navio tentava atravessar a passagem por uma "rota não autorizada" e havia desligado os sistemas de posicionamento e de radar para escapar da detecção. A IRGC classificou a embarcação como "não conforme" e disse que ela agia com apoio do que chamou de "exército terrorista e contrabandista dos Estados Unidos". A agência iraniana Fars divulgou um vídeo que, segundo ela, mostra o navio em chamas.
Nada disso teve confirmação independente. O comunicado não informa o nome, a bandeira, o armador nem a tripulação do petroleiro, e não deixa claro em que ponto do estreito o acidente teria ocorrido. Não houve, até a noite deste sábado, registro de resgate ou de vítimas.
Washington diz que a passagem está aberta
A versão americana é oposta. O chefe do Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), almirante Brad Cooper, afirmou na sexta-feira que o estreito "continua aberto para os negócios" e que a passagem é controlada pelos Estados Unidos e seus parceiros regionais, não pelo Irã. O comando sustenta que navios comerciais seguem cruzando a região a despeito do que descreve como "agressão injustificada" da IRGC.
As duas afirmações não são apenas propaganda cruzada: delas depende o cálculo de risco de cada armador que decide, a cada dia, se manda ou não um navio pelo canal. O estreito tem 34 quilômetros no ponto mais estreito e, em tempos normais, escoa cerca de um quarto de todo o petróleo transportado por mar no mundo. O Irã passou a bloquear na prática a passagem depois dos ataques americanos e israelenses ao país, e os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval aos portos iranianos.
Este não é o primeiro navio atingido na área. A própria Tasnim, agência ligada à Guarda Revolucionária, havia noticiado na véspera outro petroleiro em chamas no trecho leste do estreito, e os ataques se intensificaram nos dez dias anteriores a sábado.
O preço já estava subindo
O mercado reagiu antes do episódio de sábado. O Brent, referência internacional, fechou a sexta-feira, 16, a US$ 109,86 por barril, alta de US$ 3,94 (3,7%) no dia — a maior cotação de fechamento desde 19 de maio. O WTI americano terminou a US$ 101,41, com alta de 3,5%, o melhor nível desde 17 de setembro. Na semana, o Brent subiu 4,9% e o WTI, 10,4%.
A alta de sexta não se explica só por Ormuz. Pesaram também a interceptação, anunciada pela coalizão liderada pela Arábia Saudita, de um míssil balístico dirigido a Yanbu — porto saudita no Mar Vermelho usado justamente para exportar petróleo sem passar por Ormuz — e a parada de uma unidade de destilação na refinaria russa de Riazan após um ataque de drone, que recolocou em dúvida a oferta de diesel da Rússia.
Governos já operam no modo emergencial. A Agência Internacional de Energia (AIE) aceitou acelerar a liberação de estoques estratégicos, e o Departamento de Energia dos Estados Unidos abriu chamada para permutar até 17 milhões de barris da Reserva Estratégica de Petróleo.
O risco que não aparece no preço do barril
Há um efeito do fechamento que não se lê na cotação do petróleo. A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que a falta de um acordo para fazer fertilizantes atravessarem o estreito pode provocar uma crise alimentar: as remessas de fertilizante saídas do Golfo estão em grande parte paralisadas há mais de seis meses. O adubo que não sai do Golfo em outubro é a safra que não é plantada no hemisfério seguinte — um atraso que o mercado de energia precifica em dias e a agricultura, em estações.
Com informações de Euronews, Tasnim, Reuters e RFE/RL.




