A água quente que vem se acumulando ao longo do Pacífico equatorial o ano inteiro está perto de um recorde. A Nasa (agência espacial americana) publicou em 15 de outubro de 2026 medições de satélite que mostram a temperatura da superfície no Pacífico leste cerca de 1,7 °C (3 °F) acima da média histórica, com espaço para subir mais uma fração de grau nos próximos meses.
O Climate Prediction Center, o centro de previsão climática da NOAA (a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos), estima em 83% a probabilidade de que o trimestre de outubro a dezembro entre para a série como o El Niño mais forte desde 1950, início do registro moderno.
Um pulso que começou perto da Micronésia em janeiro
Os satélites captaram a assinatura ainda em janeiro, quando uma onda de Kelvin — um pulso lento de água quente que viaja para leste ao longo da linha do Equador, fundo demais para ser visto do convés de um navio, mas não da órbita — se formou perto da Micronésia. No começo de abril as ondas chegaram ao Pacífico leste, e a temperatura da superfície por lá começou a subir.
"As ondas de Kelvin são como o batimento cardíaco do El Niño", disse Josh Willis, cientista responsável pelas missões de nível do mar da Nasa no Jet Propulsion Laboratory.
O oceano está fisicamente mais alto
Água quente ocupa mais espaço do que água fria, e por isso um El Niño aparece como uma protuberância. Trechos do Pacífico leste estão hoje de 30 a 40 centímetros (1 a 1,3 pé) acima do normal, e essa água alta avança em direção à América do Sul antes de virar para o norte, rumo à Califórnia. Do outro lado da bacia, na região da Indonésia e do norte da Austrália, o nível do mar está de 15 a 20 centímetros abaixo do usual.
As medições de altura vêm dos satélites Sentinel-6, que mapeiam a superfície do oceano a cada dez dias, aproximadamente. A série contínua de altimetria por satélite começa em 1993 — é o que permite comparar este evento com os dois El Niños extremos de 1997-98 e 2015-16.
Outro instrumento observa uma consequência diferente. A missão PACE, da Nasa, acompanha a cor do oceano, e o Pacífico equatorial ficou mensuravelmente mais azul nos últimos meses: é a assinatura do recuo do fitoplâncton, à medida que a camada quente bloqueia a água fria e rica em nutrientes que normalmente sobe das profundidades. Menos fitoplâncton na base da cadeia alimentar costuma empurrar os peixes — e as frotas que vão atrás deles — para outras áreas.
O que tornaria o evento histórico
A NOAA não declara a força de um El Niño a partir de uma semana isolada. A classificação usa médias de três meses do Relative Oceanic Niño Index (RONI), um índice desenhado para separar o sinal do El Niño do aquecimento geral dos oceanos tropicais.
Os números até agora:
- +1,7 °C — a anomalia relativa de temperatura da superfície no Pacífico tropical central em agosto, que subiu para +2,1 °C em setembro
- +1,7 — o RONI do trimestre fechado de julho a setembro
- +2,4 °C — a anomalia semanal mais recente na região Niño-3.4, informada pelo Climate Prediction Center
- acima de +2,0 — o que a média de agosto a outubro precisa superar para o evento receber oficialmente o rótulo de "muito forte"
- +2,5 °C ou mais — o RONI trimestral que superaria todos os El Niños desde 1950
A chance de cruzar essa última marca é de 54% para setembro-novembro, 83% para outubro-dezembro e 70% para novembro-janeiro. O centro considera praticamente certo que o evento alcance a classificação de "muito forte".
Um Sul mais chuvoso, um Norte mais quente
A NOAA converteu esses números em previsão no dia 15 de outubro, quando divulgou o prognóstico para o inverno de 2026-27 no Hemisfério Norte, de dezembro a fevereiro.
Temperaturas acima da média são favorecidas em boa parte do norte dos Estados Unidos — o Noroeste do Pacífico, as Montanhas Rochosas do norte, o Meio-Oeste, o vale do Mississippi, grande parte do Leste e o Alasca, além do norte da Califórnia, de Porto Rico e das Ilhas Virgens Americanas. No Sudeste, inclusive na Flórida, o cenário mais provável é de temperaturas perto do normal.
Na chuva, a inclinação é a oposta. Precipitação acima da média é favorecida do Sudoeste ao longo de toda a faixa sul e do Sudeste, e subindo pela costa leste; em partes do extremo Sudeste e do norte da Flórida, a probabilidade de chuva acima do normal passa de 70%. Condições mais secas que a média são favorecidas em trechos das Rochosas do norte e dos Grandes Lagos e em boa parte do interior oeste e central do Alasca.
O prognóstico de seca que acompanha a previsão, de 15 de outubro a janeiro de 2027, espera alívio ou fim da estiagem no Sudoeste, nas Grandes Planícies do sul, no Sudeste e em partes da costa leste, com piora ou surgimento de seca em trechos das Rochosas do norte, do nordeste do Oregon e do leste de Washington.
Há uma ressalva embutida no formato: um prognóstico sazonal desloca as probabilidades, não agenda o tempo. Uma chance de 70% de inverno mais chuvoso no norte da Flórida é uma aposta, não a previsão de uma tempestade específica — e os dois El Niños extremos anteriores atingiram o pico no fim de novembro ou no começo de dezembro, o que significa que os efeitos mais fortes deste ainda estão à frente das medições. O Climate Prediction Center atualiza o prognóstico sazonal em 19 de novembro.
Com informações da Nasa, do Climate Prediction Center da NOAA e do NOAA Climate.gov.




