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ONU conta quase 260 mil deslocados no Iêmen desde agosto, e 12 hospitais de Taiz estão a quatro dias de ficar sem combustível

Dos 127 medicamentos essenciais da cidade cercada, 115 têm estoque para uma semana ou menos; a ONU verificou 57 civis mortos, metade deles crianças

Por Redação RecortNews
A cidade de Taiz, no sudoeste do Iêmen, em 2013. A cidade é hoje o centro dos combates e abriga cerca de metade dos deslocados.
A cidade de Taiz, no sudoeste do Iêmen, em 2013. A cidade é hoje o centro dos combates e abriga cerca de metade dos deslocados.Foto: Rod Waddington/Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Quase 260 mil pessoas deixaram suas casas no Iêmen desde agosto, segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha), que divulgou o balanço na noite de quarta-feira (21). Cerca de metade dos deslocados se abrigou em Taiz, terceira maior cidade do país e hoje o centro dos combates.

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos verificou 251 vítimas civis no período: 57 mortos e 194 feridos. Metade dos mortos eram crianças.

Doze hospitais, quatro dias de combustível

A rede de saúde de Taiz é o retrato mais direto do cerco. Segundo o porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tarik Jasarevic, 12 hospitais da cidade tinham cerca de quatro dias de combustível para os geradores. Dos 127 medicamentos essenciais, 115 tinham estoque para uma semana ou menos, e os cilindros de oxigênio registram déficit diário.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) chamou Taiz de "preocupação número um". Segundo o representante da agência no país, Akhil Iyer, a água está praticamente indisponível e o lixo se acumula nas ruas com a paralisação dos serviços de saneamento. A falta de diesel ameaça as estações de bombeamento que abastecem a cidade.

Dez dos 16 distritos de Taiz já estão classificados em nível de emergência de insegurança alimentar. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) informou que os estoques de farinha de trigo nas áreas afetadas estão quase esgotados. O Unicef havia posicionado alimentos terapêuticos prontos para uso antes da escalada, mas o material não chega às unidades de saúde porque as estradas estão fechadas.

O país já convive com surtos de cólera e sarampo e com casos suspeitos de difteria e dengue.

A rota que foi fechada

O alto comissário da ONU para os direitos humanos, Volker Türk, afirmou que o fechamento, pelos houthis, da única rota de abastecimento que liga Taiz a Áden está bloqueando a ajuda humanitária. Ele pediu que os combatentes que cercam a cidade liberem o acesso imediato e alertou para o aumento de vítimas à medida que os confrontos se aproximam de áreas densamente povoadas.

O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) calcula que cerca de 65 mil refugiados e solicitantes de asilo, a maioria somalis e etíopes, precisam de apoio urgente. Parceiros humanitários alcançaram mais de 174 mil deslocados desde agosto, com comida, kits de higiene e dinheiro emergencial, informou o Ocha. As famílias que acabaram de sair de casa apontam abrigo como a necessidade mais urgente, seguida de comida e dinheiro.

Como a guerra voltou

As forças do governo iemenita reconhecido internacionalmente, apoiadas pela Arábia Saudita, lutam contra os houthis (Ansar Allah), alinhados ao Irã. A trégua mediada pela ONU em 2022 ruiu em julho, quando o grupo declarou um bloqueio à Arábia Saudita no estreito de Bab al-Mandeb. No início de outubro, o governo lançou a contraofensiva "Amanhecer do Iêmen", com apoio da coalizão liderada pelos sauditas, para retomar áreas sob controle houthi, inclusive a capital, Sanaa.

Nesta semana houve combates intensos nas montanhas de Jabal Han, no oeste de Taiz, e nos distritos de Dhubab e al-Masrakh. O porta-voz do governo Majid al-Nazili afirmou que as forças oficiais realizaram 835 operações, com 285 houthis mortos ou feridos — números que não foram verificados de forma independente.

Nesta quinta-feira, o Ministério da Defesa iemenita alertou civis em áreas sob controle houthi para evitar comícios e "cursos culturais" do grupo, que passariam a ser tratados como alvos militares legítimos. O governo diz que esses eventos são usados para recrutar crianças.

O deslocamento de quase 260 mil pessoas em pouco mais de dois meses tem um efeito que os números de estoque explicam: a população que chega a Taiz aumenta a demanda sobre a mesma rede de hospitais, água e comida que o cerco impede de reabastecer.

Com informações da ONU News, do Ocha e da Al Jazeera.