Pular para o conteúdo
RecortNews
Economia

UE e China fecham entendimento que limita a 350 mil carros híbridos por ano a entrada no bloco

A cota vale por quatro anos a partir de 1º de dezembro, sobe 6% ao ano desde o segundo e, por regra da OMC, alcança híbridos de qualquer origem

Por Redação RecortNews
O comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, discursa no EU Export Day, em setembro de 2026.
O comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, discursa no EU Export Day, em setembro de 2026.Foto: Milan Kammermayer/Wikimedia Commons, CC BY 4.0

A União Europeia e a China chegaram a um entendimento que limita a 350 mil unidades por ano a entrada de carros híbridos e híbridos plug-in no bloco europeu. A medida, anunciada pelo comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, em Pequim, deve entrar em vigor em 1º de dezembro e valer por quatro anos, com o teto subindo 6% ao ano a partir do segundo.

Šefčovič e o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao, se reuniram em Pequim nos dias 8 e 9 de outubro e fecharam 16 pontos de entendimento, que incluem comércio e investimento, controles de exportação e propriedade intelectual.

A cota alcança todos, não só a China

Por causa da regra de não discriminação da Organização Mundial do Comércio (OMC), o teto é uma salvaguarda de importação que vale para híbridos de qualquer procedência — inclusive de países com acordo de livre-comércio com o bloco —, e não apenas para os fabricados na China. Os dois lados se comprometeram a respeitar as regras da OMC.

Nos termos do próprio Šefčovič, o efeito prático é cortar em mais da metade, ao longo de quatro anos, as exportações chinesas projetadas num cenário sem acordo — o equivalente, segundo ele, a "vários milhões" de veículos que deixariam de ser embarcados. A ressalva é importante: a redução é medida contra a projeção de crescimento, não contra o volume de hoje.

Por que o alvo são os híbridos

Em 2024, o bloco aplicou direitos compensatórios de até 35,3% sobre carros 100% elétricos de fabricação chinesa. Os híbridos e híbridos plug-in ficaram fora daquela taxação — e foi exatamente para onde as montadoras chinesas redirecionaram as exportações.

Os números mostram a velocidade da virada. As marcas chinesas saíram de cerca de 2% do mercado europeu de híbridos em 2024 para 14% no primeiro semestre de 2026, e para 25% no segmento plug-in, segundo dados do setor citados pela imprensa europeia. Em julho de 2026, os embarques chineses de híbridos para a Europa estavam na casa das 50 mil unidades no mês.

Terras raras pelo "canal verde"

Em paralelo, a China se comprometeu a continuar facilitando o licenciamento de exportação de terras raras e ímãs permanentes para o bloco por meio de um canal rápido, para dar mais previsibilidade às fábricas europeias. A União Europeia, por sua vez, vai tratar com os Estados-membros a prioridade de licenças de bens de uso dual destinados à China.

Os dois lados também acertaram aviso prévio e mais transparência quando houver inclusão ou retirada de itens das respectivas listas de controle de exportação — o ponto que mais preocupa a indústria europeia, dependente dos ímãs chineses para motores elétricos e equipamentos de defesa.

Tarifas: autopeças, azeite e calçados

A China vai estudar reduzir tarifas de nação mais favorecida sobre produtos europeus como autopeças, azeite e calçados. A União Europeia calcula que a lista corresponde hoje a quase 4 bilhões de euros em exportações e a uma economia de pelo menos 225 milhões de euros em tributos.

É pouco diante do desequilíbrio que o bloco quer corrigir: o déficit europeu no comércio de bens com a China chegou a 103 bilhões de euros no segundo trimestre de 2026, o maior desde o terceiro trimestre de 2022.

Pequim corta o rebate de IVA dos elétricos

No mesmo 12 de outubro, o Ministério das Finanças e a Administração Estatal de Tributação da China anunciaram, em comunicado conjunto, a redução do rebate de IVA na exportação de veículos de nova energia de 13% para 9%, a partir de 1º de abril de 2027. A categoria inclui elétricos a bateria e híbridos plug-in.

A medida é uma decisão interna chinesa, não parte do acordo com os europeus, e aponta na mesma direção: encarecer marginalmente o carro exportado e, segundo analistas citados pela imprensa chinesa, reduzir a guerra de preços entre as montadoras do país.

O que ainda falta

Šefčovič chamou o resultado de "um primeiro passo crucial — mas apenas um primeiro passo" no processo de reequilíbrio, e afirmou que, "onde o diálogo não entregar, a União Europeia usará suas ferramentas".

A palavra final é dos chefes de Estado e de governo: o Conselho Europeu se reúne em 15 e 16 de outubro, em Bruxelas, para avaliar se o pacote de fato inicia o reequilíbrio. A associação europeia de montadoras (ACEA) recebeu bem o entendimento sobre híbridos, mas apontou que ônibus e caminhões seguem sem solução; a associação alemã VDA foi mais cautelosa e disse que o efeito depende dos detalhes de implementação.

Com informações da Bloomberg, da Reuters, da agência Xinhua e do Seoul Economic Daily.