A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) divulgou na quinta-feira (22) a primeira avaliação global de recifes de coral de água rasa da sua Lista Vermelha de Ecossistemas. O resultado: 96% dos recifes avaliados estão na categoria "criticamente ameaçado", a mais alta da escala, e correm risco muito elevado de colapso até 2075.
O anúncio foi feito em entrevista coletiva na COP17 da biodiversidade, em Erevan, na Armênia, e também em Gland, na Suíça, onde a organização tem sede.
O que entrou na conta
A avaliação cobriu 127 ecorregiões tropicais e subtropicais, que somam 188.362 km² de recifes em mais de 80 países e territórios. Mais de 250 especialistas participaram, sob coordenação da UICN, da sua Comissão de Gestão de Ecossistemas, da Universidade de Melbourne e da CORDIO África Oriental, com os núcleos regionais da Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (GCRMN).
O método combina observações históricas, condições atuais e projeções de aquecimento do oceano, a partir de décadas de monitoramento de distribuição e degradação dos corais e de registros de satélite de temperatura da superfície do mar. Quatro das 127 ecorregiões ficaram sem dados suficientes para classificação. Uma já está na categoria "colapsado": os recifes do oeste das Ilhas Galápagos, desde o El Niño de 1982-83.
A projeção é o que move o número
A diferença entre o retrato de hoje e o cenário futuro é o dado mais revelador do relatório. Considerando apenas as mudanças observadas nos últimos 50 anos, 24% das ecorregiões seriam classificadas como criticamente ameaçadas. É a inclusão das projeções de temperatura do mar que leva a fatia a 96%.
A UICN usou o cenário "intermediário" do IPCC, que projeta 2,7 °C de aquecimento atmosférico até 2100. A ONU calcula que os compromissos de emissão hoje na mesa levam o planeta a cerca de 2,6 °C neste século.
O mesmo padrão aparece por região. No Leste Asiático, 20% dos recifes são criticamente ameaçados pelas mudanças já observadas; com as projeções, todos passam a ser. O norte do Mar Vermelho seria classificado apenas como "vulnerável" pelas tendências recentes, porque seus corais têm tolerância térmica incomum.
Estão na categoria mais grave os maiores e mais biodiversos sistemas do mundo: a Grande Barreira de Corais, na Austrália, o Triângulo de Coral, no Pacífico ocidental e no Sudeste Asiático, o Sistema Recifal Mesoamericano e os recifes do Mar Vermelho.
Calor é a ameaça, pesca é o agravante
O estresse térmico provocado pela mudança do clima é, segundo a UICN, a ameaça mais consistente ao redor do mundo: ondas de calor marinhas causam branqueamento em massa e morte de corais, com frequência crescente.
A segunda pressão é a sobre-exploração. A redução das populações de peixes-papagaio e garoupas — herbívoros e predadores que mantêm as algas sob controle — ameaça 63% dos ecossistemas recifais e aparece como problema atual no Leste Asiático, no oeste do Oceano Índico, no Caribe e no Brasil, porque enfraquece a capacidade de o recife se recuperar depois do calor. Entram ainda na lista ocupação da costa, poluição, turismo excessivo, aquicultura, tempestades mais frequentes e surtos da estrela-do-mar coroa-de-espinhos.
Colapso, no vocabulário da Lista Vermelha, não é a morte de um coral: é a perda das características que definem o ecossistema. Os corais duros praticamente desaparecem e algas, cascalho e esponjas tomam o lugar; a teia alimentar que vai de invertebrados e peixes recifais a tubarões e garoupas deixa de se sustentar. Recifes abrigam cerca de um quarto de todas as espécies marinhas.
"Janela crítica"
Em paralelo, a UICN reavaliou 892 espécies de corais formadores de recife na sua Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas: 44% estão ameaçadas de extinção. As duas avaliações são complementares — uma mede o risco de perder espécies, a outra o de perder o recife como ecossistema que funciona.
A diretora-geral da UICN, Grethel Aguilar, afirmou que "não é tarde demais" para que os recifes se recuperem, mas que isso depende de ação decisiva sobre o clima e o aquecimento dos oceanos. Para Mishal Gudka, da CORDIO África Oriental e líder científico da avaliação, a ameaça climática futura é "iminente e severa", e exatamente por isso existe "uma janela crítica para a ação" — na qual cabe a autoridades locais tratar poluição e pesca sustentável. Emily Nicholson, que lidera o grupo temático da Lista Vermelha de Ecossistemas na UICN, acrescentou que aliviar pressões locais, ampliar áreas marinhas protegidas e recompor estoques de peixes ainda muda o resultado.
Com informações da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e da AFP.




