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Verão de 2026 matou mais de 50 mil pessoas nas cidades europeias, e dois terços são atribuídos ao aquecimento global

Estudo de 854 áreas urbanas em 30 países, publicado na Nature Health, estima 50.391 mortes entre 1º de junho e 31 de agosto; quase um terço se concentrou nas duas semanas entre 17 de junho e 1º de julho.

Por Redação RecortNews
Aviso de onda de calor em nível vermelho no metrô de Paris, na estação Châtelet, em 13 de julho de 2026.
Aviso de onda de calor em nível vermelho no metrô de Paris, na estação Châtelet, em 13 de julho de 2026.Foto: FreCha/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Mais de 50 mil pessoas morreram por causa do calor nas cidades europeias no verão de 2026, e cerca de dois terços dessas mortes são atribuíveis ao aquecimento provocado pela ação humana. É o que estimam dois estudos publicados nesta sexta-feira (23) na revista Nature Health por pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM) e do Imperial College London.

O número central do modelo é de 50.391 mortes entre 1º de junho e 31 de agosto — o maior da série dos autores, que começa em 2000, e quase o dobro do verão de 2022, que ficou em torno de 29 mil.

Onde e quando

O levantamento cobre 854 áreas urbanas em 30 países: os 27 da União Europeia mais Reino Unido, Noruega e Suíça. Nelas vive cerca de 40% da população desses países.

Quase um terço das mortes se concentrou em duas semanas, entre 17 de junho e 1º de julho, quando a temperatura média diária na região ficou mais de 5 °C acima da média de 1991-2020.

O sul e o oeste da Europa tiveram as temperaturas mais altas e as maiores taxas de mortalidade. No oeste do continente, a anomalia média do verão foi de cerca de 2,9 °C acima da referência de 1991-2020, com dias que chegaram a 12 °C acima do normal para a época. O norte da Europa também foi afetado de forma significativa.

Por país, segundo os números divulgados, a Itália registrou 13.303 mortes; a França, 7.268; a Espanha, 6.824; e a Alemanha, 6.340. O Reino Unido ficou em cerca de 4,5 mil mortes, distribuídas pelas 135 áreas urbanas britânicas incluídas na análise.

Não é só idoso

Os mais velhos seguem sendo o grupo mais afetado, mas o estudo estima cerca de 6 mil mortes entre pessoas com menos de 65 anos — um recorte que costuma ficar fora do debate público sobre calor, normalmente tratado como problema exclusivo da terceira idade.

Vinte e seis anos de série

O segundo artigo aplica o mesmo método às mesmas 854 áreas nos verões de 2000 a 2025 e chega a mais de 430 mil mortes relacionadas ao calor no período. A fatia atribuível ao aquecimento de origem humana subiu de cerca de 40% em 2000 para mais de dois terços em 2025 — ou seja, o que mudou não foi apenas o total de mortes, mas quanto desse total a mudança do clima explica.

Como o número é construído — e o que ele não é

Os pesquisadores calcularam as temperaturas diárias das 854 áreas a partir de observações meteorológicas e modelos climáticos, e compararam o clima atual — já cerca de 1,4 °C mais quente que o período pré-industrial — com um clima hipotético sem o aquecimento provocado por humanos. Sobre essas temperaturas aplicaram relações já publicadas entre temperatura diária e mortalidade por todas as causas. A diferença entre os dois cenários é o que o estudo chama de mortalidade atribuível à mudança do clima.

São, portanto, estimativas de modelo, não contagem de atestados de óbito — ressalva que está no próprio material dos autores. Elas dependem de premissas sobre a população exposta e de curvas de temperatura e mortalidade obtidas das séries históricas de cada área. A LSHTM afirma que estimativas anteriores feitas por esse caminho ficaram próximas dos números depois divulgados por autoridades nacionais de saúde.

O que os autores pedem

"Este verão foi outro lembrete dramático de que a mudança do clima é problema de todo mundo", disse Pierre Masselot, da LSHTM, coautor dos dois artigos. Garyfallos Konstantinoudis, do Instituto Grantham do Imperial College, afirmou que a relação entre temperaturas mais altas e mais mortes por calor é "bem estabelecida e estatisticamente robusta".

Além do corte de emissões, os autores recomendam sistemas de alerta de calor voltados à saúde, adaptação de moradias e de unidades de saúde e planejamento urbano que produza sombra e área verde. Clair Barnes, do Imperial College e primeira autora dos dois trabalhos, resume o resultado como um lembrete de que verões mais quentes e mais extremos têm efeito cada vez mais severo sobre a saúde pública.

Com informações da London School of Hygiene & Tropical Medicine, do Imperial College London e do jornal The National.