Mais de 50 mil pessoas morreram por causa do calor nas cidades europeias no verão de 2026, e cerca de dois terços dessas mortes são atribuíveis ao aquecimento provocado pela ação humana. É o que estimam dois estudos publicados nesta sexta-feira (23) na revista Nature Health por pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM) e do Imperial College London.
O número central do modelo é de 50.391 mortes entre 1º de junho e 31 de agosto — o maior da série dos autores, que começa em 2000, e quase o dobro do verão de 2022, que ficou em torno de 29 mil.
Onde e quando
O levantamento cobre 854 áreas urbanas em 30 países: os 27 da União Europeia mais Reino Unido, Noruega e Suíça. Nelas vive cerca de 40% da população desses países.
Quase um terço das mortes se concentrou em duas semanas, entre 17 de junho e 1º de julho, quando a temperatura média diária na região ficou mais de 5 °C acima da média de 1991-2020.
O sul e o oeste da Europa tiveram as temperaturas mais altas e as maiores taxas de mortalidade. No oeste do continente, a anomalia média do verão foi de cerca de 2,9 °C acima da referência de 1991-2020, com dias que chegaram a 12 °C acima do normal para a época. O norte da Europa também foi afetado de forma significativa.
Por país, segundo os números divulgados, a Itália registrou 13.303 mortes; a França, 7.268; a Espanha, 6.824; e a Alemanha, 6.340. O Reino Unido ficou em cerca de 4,5 mil mortes, distribuídas pelas 135 áreas urbanas britânicas incluídas na análise.
Não é só idoso
Os mais velhos seguem sendo o grupo mais afetado, mas o estudo estima cerca de 6 mil mortes entre pessoas com menos de 65 anos — um recorte que costuma ficar fora do debate público sobre calor, normalmente tratado como problema exclusivo da terceira idade.
Vinte e seis anos de série
O segundo artigo aplica o mesmo método às mesmas 854 áreas nos verões de 2000 a 2025 e chega a mais de 430 mil mortes relacionadas ao calor no período. A fatia atribuível ao aquecimento de origem humana subiu de cerca de 40% em 2000 para mais de dois terços em 2025 — ou seja, o que mudou não foi apenas o total de mortes, mas quanto desse total a mudança do clima explica.
Como o número é construído — e o que ele não é
Os pesquisadores calcularam as temperaturas diárias das 854 áreas a partir de observações meteorológicas e modelos climáticos, e compararam o clima atual — já cerca de 1,4 °C mais quente que o período pré-industrial — com um clima hipotético sem o aquecimento provocado por humanos. Sobre essas temperaturas aplicaram relações já publicadas entre temperatura diária e mortalidade por todas as causas. A diferença entre os dois cenários é o que o estudo chama de mortalidade atribuível à mudança do clima.
São, portanto, estimativas de modelo, não contagem de atestados de óbito — ressalva que está no próprio material dos autores. Elas dependem de premissas sobre a população exposta e de curvas de temperatura e mortalidade obtidas das séries históricas de cada área. A LSHTM afirma que estimativas anteriores feitas por esse caminho ficaram próximas dos números depois divulgados por autoridades nacionais de saúde.
O que os autores pedem
"Este verão foi outro lembrete dramático de que a mudança do clima é problema de todo mundo", disse Pierre Masselot, da LSHTM, coautor dos dois artigos. Garyfallos Konstantinoudis, do Instituto Grantham do Imperial College, afirmou que a relação entre temperaturas mais altas e mais mortes por calor é "bem estabelecida e estatisticamente robusta".
Além do corte de emissões, os autores recomendam sistemas de alerta de calor voltados à saúde, adaptação de moradias e de unidades de saúde e planejamento urbano que produza sombra e área verde. Clair Barnes, do Imperial College e primeira autora dos dois trabalhos, resume o resultado como um lembrete de que verões mais quentes e mais extremos têm efeito cada vez mais severo sobre a saúde pública.
Com informações da London School of Hygiene & Tropical Medicine, do Imperial College London e do jornal The National.




