A medida provisória assinada na sexta-feira (25), que encerra as apostas de quota fixa no Brasil, tem um endereço muito concreto: a camisa da maioria dos times de futebol do país. Em quatro anos, as casas de apostas passaram de anunciante marginal a principal financiador do calendário — e agora saem de cena com um prazo de duas semanas.
Na Série A, 14 dos 20 clubes têm uma bet como patrocinador máster. Escapam apenas Athletico-PR, Bahia, Coritiba e Internacional, que não mantêm vínculo com o setor. Na Série B, 13 dos 20 clubes têm algum contrato com casas de apostas, 11 deles na cota principal. A Série C soma outros sete clubes.
Quanto vale cada camisa
Os valores anuais dos contratos de patrocínio máster na primeira divisão, segundo levantamentos da CNN Brasil e do jornal O Tempo:
| Clube | Valor anual | Patrocinador |
|---|---|---|
| Flamengo | R$ 268,5 milhões | Betano |
| Corinthians | R$ 150 milhões | Esportes da Sorte |
| São Paulo | R$ 113 milhões | Superbet |
| Palmeiras | R$ 100 milhões | Sportingbet |
| Atlético-MG | R$ 62 milhões | H2Bet |
| Botafogo | R$ 55 milhões | VBet |
| Fluminense | R$ 52 milhões | Superbet |
| Vasco | R$ 50 milhões | Sportingbet |
| Grêmio | R$ 46 milhões | Pitaco |
| Cruzeiro | R$ 40 milhões | Betnacional |
| Santos | R$ 35 milhões | Novibet |
| Vitória | R$ 20 milhões | 7KBet |
| Remo | R$ 12 milhões | VaideBet |
| Chapecoense | não divulgado | ZeroUm |
O contrato do Flamengo sozinho vale mais que a soma dos seis menores da lista. A exposição não termina nos uniformes: a Betano detém também o naming right do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil, em acordo estimado entre R$ 70 milhões e R$ 80 milhões por ano — o que significa que a competição pode perder o nome comercial no meio da temporada.
Um terço da receita de marketing
O mercado de apostas movimentou cerca de R$ 1,1 bilhão em patrocínio no futebol brasileiro em 2025, o equivalente a 34% de toda a receita de marketing dos maiores clubes e a aproximadamente 8% da receita total deles. Em 2026, o volume se manteve acima de R$ 1 bilhão.
É uma dependência construída depressa e concentrada num único setor — a situação que, no jargão financeiro, costuma ser descrita como risco de contraparte. A MP transforma esse risco em perda contábil de uma vez só, e no meio do exercício.
Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, estimou que o futebol brasileiro pode perder "cerca de R$ 2,5 bilhões" no ano que vem caso a medida provisória seja aprovada pelo Congresso — cifra que é mais que o dobro do patrocínio direto e inclui efeitos indiretos sobre transmissão e comercialização.
A reação do setor
O grupo Flutter, que opera algumas das marcas atingidas, e o Instituto Brasileiro do Jogo Responsável manifestaram-se contra a proibição, defendendo o caminho da "regulamentação, fiscalização e recolhimento de impostos" em lugar do banimento.
Os clubes, até agora, não anunciaram posição coletiva. O texto precisa ser aprovado pelo Congresso em até 60 dias, prorrogáveis por mais 60, e a expectativa do governo é de votação em novembro — o que dá às federações e aos clubes uma janela para tentar emendas no Legislativo. Até lá, os contratos existem no papel, mas as empresas que os assinaram não poderão operar no país a partir de 6 de outubro.
Com informações da CNN Brasil, do jornal O Tempo e da Agência Gov.



