Pular para o conteúdo
RecortNews
Política

Bolívia declara emergência nacional por causa do El Niño, com 78 mil famílias sem água e mais de 75 mil cabeças de gado perdidas

O Decreto Supremo 5759, assinado em 31 de outubro, cobre a seca e o risco de geadas, granizo, incêndios florestais, enchentes e enxurradas, e libera mecanismos de financiamento contingente

Por Redação RecortNews
Rodrigo Paz Pereira toma posse como presidente da Bolívia, em novembro de 2025.
Rodrigo Paz Pereira toma posse como presidente da Bolívia, em novembro de 2025.Foto: Presidencia de la República del Ecuador/Wikimedia Commons, domínio público

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira, assinou no sábado, 31 de outubro de 2026, o Decreto Supremo 5759, que declara situação de emergência nacional pela seca e pelos riscos ligados ao fenômeno El Niño de 2026-2027. O anúncio veio em pronunciamento à nação, quando a falta de água já atinge pouco mais de 78 mil famílias em seis dos nove departamentos do país.

A decisão seguiu uma recomendação do Conarade (Consejo Nacional para la Reducción de Riesgos y Atención de Desastres, o conselho boliviano de redução de riscos e atendimento a desastres), formalizada na Resolução nº 014/2026, de 30 de outubro.

O que o decreto cobre

O artigo 1º fixa o objetivo da declaração: "proteger os meios de vida da população boliviana", com atenção às famílias que dependem de atividades produtivas expostas ao clima. O artigo 2º não se limita à seca: inclui o risco iminente de geadas, granizo, incêndios florestais, enchentes, enxurradas e transbordamentos, a partir dos cenários de risco do sistema nacional de alerta.

A norma se apoia na Ley 602 de Gestión de Riesgos (lei boliviana de gestão de riscos), que manda dar prioridade a "a vida, a integridade física e a saúde das pessoas" sobre a infraestrutura e os bens materiais. O Ministério da Defesa e os demais órgãos competentes ficam obrigados a se articular com governos departamentais e prefeituras, e o decreto encarrega os ministros de Estado da execução em cada pasta.

Um decreto de emergência não destina orçamento por si só: o que ele libera é o acesso a mecanismos de financiamento contingente e o envio acelerado de recursos e unidades de resgate aos pontos críticos. O texto publicado não fixa valores nem prazo de vigência, e se refere ao período do El Niño de 2026-2027.

Os números da seca

O último relatório do Viceministerio de Defensa Civil (a defesa civil boliviana), divulgado nesta semana, registra:

  • pouco mais de 78 mil famílias atingidas pela falta de água, em seis dos nove departamentos;
  • mais de 75 mil cabeças de gado perdidas;
  • 63 comunidades que já decretaram emergência por escassez de água.

A justificativa do decreto localiza a seca no Altiplano, nos Valles e no Chaco, sem detalhar departamentos.

O que Paz disse

O presidente defendeu a gestão ambiental do seu governo — "fizemos um trabalho enorme para preservar o meio ambiente" — e alertou para o que vem: "Este será um fenômeno que terá golpes muito duros em seca e enchentes". Sobre as famílias sem água e sem forragem, disse: "Sabemos que há famílias que vão sofrer a necessidade de água". E pediu a cooperação de todas as instituições do Estado: "Vamos empregar nosso maior esforço".

Um episódio que estoura as escalas

A declaração boliviana se apoia em uma previsão fora do normal. A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou nesta semana que o episódio em curso pode alcançar "uma intensidade sem precedentes" e superar as escalas de monitoramento usadas por quatro décadas.

O efeito já é medido nos países vizinhos. No Peru, o El Niño elevou as temperaturas e agravou os incêndios florestais, com pelo menos 12 mortos, enquanto a dengue acumula 81 mortes em 2026. No Chile, o mesmo episódio produziu o outubro mais chuvoso já registrado em Santiago. O contraste entre seca no Altiplano e chuvas extremas no Cone Sul é o que explica por que o decreto boliviano cobre, no mesmo artigo, a falta de água e as enchentes.

Com informações da Red Uno, do Infobae, da agência Andina e da EFE.