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Política

Chile tira a Defesa do corte de gastos e quase dobra o investimento militar na zona austral

O ministro Fernando Barros anunciou em Punta Arenas o primeiro financiamento integral da lei de capacidades estratégicas, com a substituição dos F-5, dos Hércules e dos Leopard 1.

Por Redação RecortNews
O porto de Punta Arenas, no Estreito de Magalhães, em 2012. O plano anunciado inclui o estudo de melhorias nessa infraestrutura portuária.
O porto de Punta Arenas, no Estreito de Magalhães, em 2012. O plano anunciado inclui o estudo de melhorias nessa infraestrutura portuária.Foto: Manuel Cañón P./Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O governo chileno deixou a Defesa fora do ajuste orçamentário e anunciou que quase dobrará o investimento em capacidades militares, com foco no extremo sul do país. O anúncio foi feito pelo ministro da Defensa Nacional (Ministério da Defesa), Fernando Barros Tocornal, em 24 de setembro de 2026, na base aérea de Chabunco, em Punta Arenas, acompanhado dos comandantes em chefe do Exército, da Marinha e da Força Aérea.

Barros descreveu a decisão como o início de "uma nova etapa" e defendeu o horizonte longo: a defesa de um país, disse ele, se pensa e se constrói com anos de antecedência, segundo o jornal La Tercera. Novos cortes, argumentou, poderiam comprometer a segurança e a soberania.

O que será financiado

O anúncio inclui o primeiro financiamento integral da Ley de Financiamiento de Capacidades Estratégicas de la Defensa (lei que custeia as capacidades estratégicas da defesa), norma que substituiu a antiga Ley del Cobre (lei que destinava parte da receita do cobre às Forças Armadas), com planejamento que vai até 2043. O investimento, segundo o ministério, quase dobra em relação ao ano anterior.

O material que sai e o que entra:

  • Força Aérea: estudos para substituir os caças F-5 Tiger, com meio século de serviço, e os transportes C-130 Hércules, essenciais para a logística antártica; renovação da frota de helicópteros UH-1H.
  • Marinha: incorporação de quatro aviões de patrulha marítima de longo alcance em 2027 e cinco aeronaves para o serviço antártico entre 2027 e 2028; em estudo, melhorias na infraestrutura portuária de Punta Arenas.
  • Exército: modernização dos tanques Leopard 1 no sul do país, com sistemas de tiro adaptados ao clima extremo.

O governo estuda também construir novas bases na zona austral, para ampliar a presença permanente de tropas em Magalhães. Segundo o jornal mexicano La Jornada, o orçamento militar chileno de 2026 gira em torno de 2,4 bilhões de dólares.

O pano de fundo com a Argentina

O plano vem depois de um atrito diplomático com Buenos Aires. Em 5 de setembro, horas após uma reunião bilateral, o chanceler argentino Pablo Quirno afirmou no canal A24 que a Argentina é "um país bicontinental, bioceânico" e que deve reforçar sua presença no Atlântico Sul como via de acesso à Antártida.

A declaração reabriu a discussão sobre o Estreito de Magalhães, pouco depois de os presidentes José Antonio Kast e Javier Milei se reunirem em La Moneda (sede do governo chileno) e assinarem declaração conjunta que reafirma o Tratado de Limites de 1881 e o Tratado de Paz e Amizade de 1984, os instrumentos que reconhecem a soberania chilena sobre todo o estreito.

No Chile, as críticas foram transversais. O deputado republicano Alejandro Riquelme sustentou que os tratados não podem ser reinterpretados por conveniência; da oposição ao governo, Raúl Soto (PPD) classificou a política externa de "ingênua e amadora", e o senador Iván Moreira (UDI) pediu uma postura "mais firme e energética".

A leitura que fica é que o anúncio de Punta Arenas é orçamentário e político ao mesmo tempo: o lugar escolhido para fazê-lo, a 2.200 quilômetros de Santiago e sobre o estreito, é parte da mensagem.

Com informações de La Tercera, La Jornada, El Pingüino e do Ministério da Defesa Nacional do Chile.