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Estudo projeta 451 mil mortes por calor até fevereiro com o El Niño em curso

Levantamento do Climate Impact Lab estima 44% mais dias de calor extremo do que num ano normal; Nigéria, Indonésia e Sudão concentram as projeções, e o Sahel responde por 66,8 mil delas

Por Redação RecortNews
Mapa de anomalias da temperatura da superfície do mar em 21 de agosto de 2023: a faixa quente no Pacífico equatorial central e leste é a assinatura de um El Niño em formação.
Mapa de anomalias da temperatura da superfície do mar em 21 de agosto de 2023: a faixa quente no Pacífico equatorial central e leste é a assinatura de um El Niño em formação.Foto: NASA Earth Observatory image by Lauren Dauphin, using data from the Multiscale Ultrahigh Resolution (MUR) project/Wikimedia Commons, Public domain

O El Niño em curso no Pacífico pode provocar até 451 mil mortes por calor acima da média entre junho deste ano e o fim de fevereiro de 2027, segundo projeção que o Climate Impact Lab, uma colaboração internacional de pesquisa, divulgou na quarta-feira, 23 de setembro.

O número não é uma contagem de vítimas já registradas. É a diferença estimada entre o que se espera nesses nove meses e o que aconteceria num período equivalente de temperaturas normais — o que os epidemiologistas chamam de mortes em excesso. Na mesma janela, o levantamento projeta 44% mais dias de calor extremo do que num ano comum.

Onde as projeções se concentram

A distribuição é desigual, e segue menos a intensidade do calor do que a capacidade de suportá-lo. As maiores projeções nacionais são:

  • Nigéria: 31,4 mil mortes
  • Indonésia: 19,3 mil
  • Sudão: 17,6 mil

Somados, Níger, Chade, Nigéria e Sudão — a faixa do Sahel — respondem por 66,8 mil das mortes projetadas. Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja, juntos, por 19,4 mil.

São regiões em que o calor extremo encontra pouca infraestrutura de adaptação: pouco ar-condicionado, sistemas de saúde sobrecarregados e populações que trabalham ao ar livre. É essa combinação, mais que o termômetro isolado, que a projeção tenta capturar.

Como a conta foi feita

Os pesquisadores examinaram a relação entre temperatura e mortalidade em 24.378 regiões do mundo, levando em conta o clima local e o grau de vulnerabilidade de cada uma, e cruzaram esse resultado com as previsões de temperatura para o período. A comparação é feita contra a média dos anos de 1996 a 2025.

A metodologia ainda vai passar por publicação revisada por pares — ou seja, os números são uma estimativa divulgada antes do escrutínio formal da comunidade científica, e é assim que devem ser lidos.

Michael Greenstone, economista da Universidade de Chicago e um dos pesquisadores ligados ao grupo, sustenta que o valor do exercício está menos no total agregado do que no mapa: saber onde o risco se concentra permite que governos direcionem medidas de emergência antes do pico.

Um El Niño mais forte num planeta mais quente

O fenômeno já é descrito por cientistas como um "super El Niño". No início de setembro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu a situação numa frase: "O El Niño está sendo superdimensionado diante dos nossos olhos. O planeta está em águas desconhecidas, e essas águas estão esquentando."

Dois números ajudam a entender por que este ciclo pesa mais que os anteriores. A maior parte dos episódios de El Niño eleva a temperatura média global em cerca de 0,2 °C — mas essa elevação agora se soma a um aquecimento de 1,3 °C a 1,4 °C acima dos níveis pré-industriais já causado pela atividade humana. E um estudo publicado em agosto concluiu que os El Niños são hoje 36% mais fortes do que antes da era industrial, o que os autores associam ao aquecimento de origem humana.

Akshay Deoras, da Universidade de Reading, atribui a intensidade deste ciclo aos ventos fortes da primavera no hemisfério norte, que empurraram água quente para o Pacífico central. Adam Scaife, do serviço meteorológico britânico, o Met Office, observa que a avaliação dos impactos ainda está em andamento, mas que os efeitos esperados já são visíveis.

O que já se vê — e o que se prepara

A Índia registra chuvas de monção abaixo do normal, e o sul da África enfrenta risco ampliado de seca. Nos dois casos, o efeito não é apenas o calor: é a colheita que não vem.

Do lado da preparação, o Reino Unido prometeu até £ 15 milhões (cerca de € 17 milhões) para países vulneráveis, destinados a vacinação de rebanhos, reforço de moradias e apoio a agricultores — o tipo de gasto antecipado que custa menos que a resposta emergencial depois do desastre.

Davide Faranda, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e autor principal de relatórios do IPCC, resume onde está a margem de manobra: "A chave é gerir a água e se preparar para as mudanças de onde e quando a chuva cai." Mitigação climática, acrescenta, não faz o El Niño desaparecer — ele é um fenômeno natural do Pacífico —, mas reduz o quanto a mudança do clima agrava suas consequências.

Com informações do Climate Impact Lab, da Al Jazeera e da Euronews.