A Coreia do Sul exigiu explicações e um pedido de desculpas da Ucrânia por causa da divulgação de um episódio que os dois governos haviam combinado manter em sigilo: a transferência para Seul de dois soldados norte-coreanos capturados enquanto lutavam pela Rússia.
A revelação foi feita pelo presidente Volodymyr Zelensky na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, na semana passada. "Esses rapazes não são fáceis de capturar vivos", disse, ao contar que um dos soldados tentou se matar ao perceber que seria preso e "ficou chocado por o destino não tê-lo deixado morrer".
Os dois primeiros capturados vivos
Os soldados foram presos em janeiro de 2025, na região russa de Kursk, e são os primeiros militares norte-coreanos capturados vivos desde que Pyongyang passou a enviar tropas para lutar ao lado da Rússia.
Os números da participação norte-coreana são expressivos: entre 14 mil e 15 mil soldados foram deslocados para a Rússia desde 2024, e mais de 6 mil morreram em combate.
O que diz Seul
A Presidência sul-coreana afirma que o acordo de não divulgação existia para proteger os dois homens. Seong Ghi-hong, secretário presidencial sênior de comunicação, observou que a divulgação pública pode provocar críticas internas em Kiev, sob o argumento de que a Ucrânia teria aberto mão da chance de usar os prisioneiros em uma troca. Ele indicou que o governo estuda "medidas adicionais".
O presidente Lee Jae-myung foi direto: "Não sei que circunstâncias levaram o lado ucraniano a divulgar o assunto apesar do acordo de confidencialidade, mas é profundamente lamentável". E acrescentou: "A questão de trazer prisioneiros norte-coreanos para a Coreia do Sul é altamente sensível".
O que diz Kiev
A Presidência ucraniana rejeita a acusação de quebra de compromisso. Dmytro Lytvyn, assessor de Zelensky, afirmou que a Ucrânia é "um país aberto" e que seria incomum tratar transferências desse tipo em segredo. "Relatamos apenas o fato em si, que eles foram enviados à República da Coreia", disse.
O atrito coloca em lados opostos dois governos que vinham se aproximando: Seul é um dos fornecedores indiretos de munição para o esforço europeu de apoio a Kiev, e a presença de tropas norte-coreanas no front é, para a Coreia do Sul, um problema de segurança doméstica antes de ser uma questão de política externa.
Com informações de Al Jazeera e ABC News (Austrália).




