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A última década foi a mais quente desde que existem medições, diz a agência de clima da ONU

Período de 2015 a 2025 lidera a série histórica iniciada em 1850; oceano já armazena 91% do excesso de calor do planeta

Termômetro de rua em um dia de calor intenso no Rio de Janeiro
Termômetro de rua em um dia de calor intenso no Rio de JaneiroFoto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O relatório Estado do Clima Global 2025, da Organização Meteorológica Mundial (WMO), mostra que o período de 2015 a 2025 foi o mais quente já registrado desde o início das medições, em 1850. O documento saiu nesta segunda-feira (23), Dia Mundial da Meteorologia.

O ano de 2025 está entre os mais quentes da série, com cerca de 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais (1850–1900).

"Quando a história se repete onze vezes"

"O estado do clima global é de emergência. O planeta Terra está sendo levado além de seus limites. Todos os principais indicadores climáticos estão em alerta máximo", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres.

"A humanidade acaba de passar pelos onze anos mais quentes já registrados. Quando a história se repete onze vezes, não é mais uma coincidência. É um chamado à ação."

Ele acrescentou uma leitura que liga clima e segurança: "Nesta era de guerra, o estresse climático também está expondo outra verdade: nossa dependência de combustíveis fósseis está desestabilizando tanto o clima quanto a segurança global."

Para onde vai o calor

O relatório usa o desequilíbrio energético da Terra como indicador — a diferença entre a energia solar que entra e a que o planeta irradia de volta. Num clima estável, as duas se aproximam. Com o aumento de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, elas se descolaram, e o desequilíbrio cresce desde o início das observações, em 1960, sobretudo nos últimos 20 anos.

O destino desse excesso é desigual:

  • 91% vai para o oceano, que funciona como amortecedor do aquecimento em terra
  • cerca de 5% fica nas massas continentais
  • 3% aquece e derrete gelo do Ártico e da Antártida
  • 1% fica na atmosfera

Em 2025, o calor armazenado no oceano até 2 mil metros de profundidade atingiu o nível mais alto desde 1960, superando o recorde de 2024.

A WMO afirma que as alterações no aquecimento e no pH das profundezas oceânicas são irreversíveis em escalas de séculos a milênios. A elevação do nível médio do mar acelerou desde o início das medições por satélite, em 1993.

Saúde e trabalho

Mais de um terço da força de trabalho global — 1,2 bilhão de pessoas — enfrenta riscos relacionados ao calor no local de trabalho, sobretudo na agricultura e na construção civil.

A entidade alerta ainda para o aumento de doenças transmitidas por vetores e pela água, e para o estresse sobre a saúde mental de populações vulneráveis. Defende integrar dados meteorológicos aos sistemas de informação em saúde, para que a resposta seja preventiva em vez de reativa.

"No dia a dia, nosso clima tem se tornado mais extremo", disse a secretária-geral da WMO, Celeste Saulo. "Em 2025, ondas de calor, incêndios florestais, secas, ciclones tropicais, tempestades e inundações causaram milhares de mortes, afetaram milhões de pessoas e geraram bilhões em prejuízos econômicos."


Com informações da Agência Brasil. Reportagem original de Camila Boehm, publicada em 23 de março de 2026.