A comissão de Meio Ambiente (ENVI) do Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (4), por 48 votos a 30 e duas abstenções, um texto que desmonta parte do fim dos motores a combustão marcado para 2035 na União Europeia.
Pela regra em vigor, os carros novos vendidos no bloco a partir daquele ano teriam de cortar 100% das emissões de CO2 em relação a 2021 — o que, na prática, significava o fim da venda de veículos novos a gasolina e a diesel. O acordo aprovado reduz essa meta a 87,5%, patamar menos ambicioso até do que os 90% que a própria Comissão Europeia havia proposto.
O que muda no texto
- Carros: meta de 2035 cai de 100% para 87,5%. As montadoras ainda podem compensar os 7,5% restantes com créditos ligados ao aço de baixo carbono produzido na UE, chegando a um limite global de 95%.
- Veículos comerciais leves: a meta de 2035 cai de 90% para 80%, e a de 2030 vai de 50% na regra atual — e 40% no texto da Comissão — para 35%.
- Definição de emissão zero: passa a incluir veículos que rodem exclusivamente com combustíveis que atendam aos critérios da diretiva de energias renováveis.
- Supercréditos: carros elétricos pequenos (até 4,2 metros) fabricados na UE contam como 1,4 veículo no cálculo da frota; elétricos eficientes feitos na UE contam como 1,2, com acréscimo de 0,1 em caso de leasing social. Vans elétricas fabricadas na UE valem 1,2 até o fim de 2034 e 1,4 a partir de 2035.
O acordo é um compromisso costurado entre três grupos: o Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, os Socialistas e Democratas (S&D) e o Renew Europe, liberal.
"Virada" para uns, "sinal de insegurança" para outros
O relator do texto, o italiano Massimiliano Salini, do PPE, disse que o acordo "marca uma virada para a indústria automotiva europeia" e destacou que, com ele, "ainda será possível registrar carros com motor a combustão sem nenhuma exigência de compensação".
Peter Liese, porta-voz do PPE para o clima, defendeu a decisão nos termos da neutralidade tecnológica: "Queremos neutralidade climática, mas, com as regras que acabamos de acordar, garantimos também neutralidade tecnológica." Segundo ele, híbridos plug-in e veículos com extensor de autonomia devem manter um papel em 2035 e depois.
Do lado contrário, o alemão Michael Bloss, dos Verdes, classificou a votação como um mau acordo para o próprio setor: "Enquanto as vendas de carros elétricos disparam, a maioria do Parlamento Europeu manda um sinal de insegurança."
Entidades industriais receberam o texto como avanço insuficiente. A italiana Confindustria e a alemã BDI o trataram como passo positivo, mas pedem uma meta de 90% para a frota sem condicionantes, mais neutralidade tecnológica e nenhuma cota obrigatória para frotas de empresas.
O que vem agora
O texto não é lei. Ele segue para o plenário do Parlamento Europeu em dezembro, que decidirá se o endossa. Se aprovado ali, os eurodeputados ganham mandato para negociar a versão final com o Conselho da UE, onde estão os governos dos 27 países — e é nessa etapa que o número de 87,5% pode subir ou cair de novo.
A votação é a segunda derrota recente do Pacto Verde Europeu em pauta ligada ao transporte, área em que as emissões caem mais lentamente do que no setor elétrico.
Com informações da Euronews e da Eunews.




