O Tribunal Superior de Hong Kong condenou nesta quinta-feira (5) o ativista pró-democracia Joshua Wong a mais dez anos de prisão por conluio com forças estrangeiras, crime previsto na lei de segurança nacional que Pequim impôs ao território em 2020. A sentença foi lida pelo juiz William Tam.
Wong tem 30 anos — completados em outubro — e está preso desde dezembro de 2020. Cumpria uma pena de quatro anos e oito meses por subversão e tinha soltura prevista para janeiro, a cerca de dois meses de distância. Com a nova condenação, só deve deixar a prisão no fim de 2036.
Treze anos, reduzidos pela confissão
O juiz fixou o ponto de partida da pena em 13 anos e aplicou um desconto pela confissão: Wong se declarou culpado em setembro deste ano. Tam classificou o crime como de natureza grave, rejeitou o argumento de que o papel do réu havia sido limitado e afirmou que a punição precisava ser proporcional à gravidade da conduta e expressar a reprovação da comunidade ao esquema. A moldura legal do artigo permitiria até prisão perpétua.
Na decisão, o tribunal descreveu Wong e o também ativista Nathan Law — exilado e procurado pelas autoridades de Hong Kong — como os dois líderes ou mentores de uma conspiração para pôr em risco a segurança nacional.
A acusação: um lobby que começa em 2016
Wong foi reindiciado em junho de 2025, já na prisão. A acusação sustentou que ele pediu a outros países que impusessem sanções a Hong Kong e à China, e situou o início dessa articulação em 2016, quando o ativista passou a defender publicamente o Hong Kong Human Rights and Democracy Act — a lei americana de direitos humanos e democracia em Hong Kong, aprovada anos depois.
Em 2019, Wong integrou uma delegação que foi aos Estados Unidos fazer campanha pelo projeto. Os promotores citaram encontros, em 2016 e 2019, com os parlamentares americanos Nancy Pelosi e Marco Rubio, além de reuniões posteriores com políticos estrangeiros e campanhas de petições conduzidas por Law e outros.
Defesa, e o que Wong escreveu
O advogado de Wong, Derek Chan, pediu uma pena que deixasse ao cliente alguma perspectiva de futuro, dizendo que ele desejava cuidar dos pais depois de solto. Em carta de atenuação à qual a agência AFP teve acesso, Wong afirmou que esperava sair da prisão em 2027 e que a nova acusação lhe dava a sensação de estar de volta ao ponto de partida. Escreveu também que seu futuro não seria definido pelo que fez antes de 2020 e que os anos de cadeia foram suas lições mais profundas. Ao deixar o tribunal, agradeceu aos apoiadores.
As reações
O consulado dos Estados Unidos em Hong Kong afirmou condenar "fortemente" a sentença e pediu a libertação "imediata" do ativista, a quem descreveu como injustamente encarcerado desde dezembro de 2020. O porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, advertiu contra "comentários irresponsáveis" a respeito do caso.
Do lado das autoridades locais, o superintendente-chefe do Departamento de Segurança Nacional da polícia de Hong Kong, Steve Li, saudou a decisão e disse que ela mostra a inutilidade dos esforços de Wong para mobilizar sanções estrangeiras. O órgão que cuida da política para a China em Taiwan acusou Pequim e o governo de Hong Kong de fabricar acusações e praticar perseguição política.
A Human Rights Watch classificou a pena de dura e injusta. A diretora da organização para a Ásia, Elaine Pearson, pediu a soltura imediata; a entidade também defendeu que governos estrangeiros apliquem sanções direcionadas a autoridades responsáveis pela repressão no território.
A lei de 2020 e o cerco à oposição
Pequim impôs a lei de segurança nacional a Hong Kong em 2020, no ano seguinte aos grandes protestos de 2019. Desde então, grupos de oposição se dissolveram e parte dos ativistas deixou o território.
Em fevereiro deste ano, o empresário Jimmy Lai, fundador do jornal Apple Daily — hoje extinto —, foi condenado a 20 anos sob a mesma lei. Em 2024, dezenas de figuras pró-democracia foram presas por subversão no maior julgamento de segurança nacional já realizado na cidade; algumas já foram libertadas.
Wong ficou conhecido ainda adolescente, na liderança estudantil do Movimento dos Guarda-chuvas, em 2014.
Com informações da Euronews e da ABC News (Austrália).




