Um agente federal de imigração baleou e feriu um venezuelano de 28 anos durante a abordagem de um veículo no norte de Austin, na tarde de domingo, numa operação da qual a polícia local diz não ter participado e que deixou duas versões irreconciliáveis sobre quem é o ferido.
O ferido é Wilber Rafael Garces Perez, segundo seu advogado e autoridades que falaram publicamente desde o tiroteio. Ele trabalhava como entregador do DoorDash quando foi parado. Foi atingido uma vez no tórax, levado ao Dell Seton Medical Center e descrito na segunda-feira como em estado grave, porém estável — e, segundo o Department of Homeland Security (DHS, o ministério da segurança interna dos Estados Unidos), sob custódia federal à espera da deportação.
O que se sabe da sequência
O tiroteio aconteceu por volta das 12h50 de domingo, 20 de setembro, no horário central dos EUA, perto do cruzamento da Anderson Square com a Research Boulevard. O serviço de emergência de Austin-Travis County foi avisado seis minutos depois, às 12h56.
A chefe de polícia de Austin, Lisa Davis, disse que o episódio "pode ter envolvido uma perseguição a pé", ressalvando que a informação era preliminar. Ela foi explícita num ponto: a polícia local não participou do tiroteio. Policiais rodoviários estaduais do Texas chegaram a atender, depois que o ICE (Immigration and Customs Enforcement, a agência federal de imigração) pediu ajuda para perseguir um Toyota Corolla azul.
O agente que atirou não foi identificado. O carro que Garces Perez dirigia ficou com pelo menos duas marcas de tiro no lado do passageiro.
O vereador Mike Siegel, que mora a poucas quadras do local, deu uma versão bem mais específica: afirmou que um agente do ICE bateu no carro do homem, desceu do veículo federal e atirou ao menos cinco vezes. Nenhuma agência confirmou essa versão. O advogado de Garces Perez diz que ele conseguiu ligar para a mulher de dentro do carro, gritando de dor.
Duas versões do mesmo homem
A disputa não é só sobre o tiroteio. É sobre quem foi abordado.
Um porta-voz do DHS disse que Garces Perez "entrou ilegalmente no nosso país sob o governo Biden" e que havia contra ele uma ordem final de deportação. O advogado sustenta o contrário: que ele entrou legalmente nos Estados Unidos, tem permissão de trabalho válida e é casado com uma mulher com situação regular.
As duas afirmações não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e nenhuma foi confrontada com um documento tornado público. É essa lacuna que as cobranças por imagens miram.
Quem investiga quem
O braço investigativo do DHS conduz a apuração — ou seja, o mesmo departamento cujo agente atirou é quem investiga o tiroteio. É esse arranjo que as autoridades locais contestam.
O deputado federal Greg Casar pediu investigação independente e a "divulgação imediata das imagens da câmera corporal, e responsabilização de qualquer agente do ICE que tenha infringido a lei", lembrando casos anteriores em que, segundo ele, a versão inicial do ICE não sobreviveu ao vídeo. A Promotoria do condado de Travis pediu para atuar ao lado da polícia municipal e ter acesso às provas federais — um pedido, não um direito, já que o agente é um servidor federal.
O prefeito Kirk Watson disse estar irritado, mas — fez questão de marcar — não surpreso, e traçou uma linha com episódios parecidos em Chicago e Minneapolis.
Ao menos o segundo caso assim no Texas neste ano. Um incidente fatal envolvendo agentes de imigração ocorreu em Houston em julho, e outro disparo foi registrado no Maine no mesmo mês. O que as autoridades locais repetem não é só a frequência, mas a ordem: primeiro a nota da agência, depois — ou nunca — as imagens.
Com informações de TIME, NPR, CBS News e CNN.



