O Senado do Paraguai destituiu nesta sexta-feira, 6 de novembro de 2026, o presidente Santiago Peña, ao fim de um processo de impeachment aberto pela quebra do ueno bank. A votação terminou com 44 votos a favor do afastamento e nenhum contra, numa casa de 45 membros. O vice-presidente Pedro Alliana o sucede e deve completar o mandato, que termina em agosto de 2028.
É a segunda destituição de um presidente paraguaio por impeachment em pouco mais de uma década. A anterior foi a de Fernando Lugo, em 2012, caso que segue aberto na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e que o presidente do Senado, Basilio "Bachi" Núñez, havia citado como precedente na abertura do processo.
A acusação: mau desempenho de funções
O libelo acusatorio — a peça de acusação — aprovado pela Cámara de Diputados (Câmara dos Deputados) com 78 votos, segundo a cobertura do Semana, imputou a Peña mau desempenho de suas funções, e não um crime. A acusação se apoiou em três linhas: a responsabilidade política pelo colapso da instituição financeira; o suposto direcionamento de recursos de órgãos do Estado ao banco, entre eles fundos do Instituto de Previsión Social (o instituto de previdência paraguaio); e os vínculos comerciais do próprio presidente com a instituição, da qual foi acionista da sociedade controladora até 2025.
A decisão do Senado não equivale a uma condenação criminal. As eventuais responsabilidades penais ficam nas mãos da Justiça comum.
Peña negou ter cometido irregularidades e sustentou que o assunto pertence à esfera da supervisão financeira.
Uma renúncia que não foi aceita
O presidente havia apresentado sua renúncia na quinta-feira, mas a sessão bicameral que deveria analisá-la perdeu o quórum quando parlamentares de sua própria base se retiraram. Sem renúncia aceita, Peña seguiu no cargo e o Congresso avançou pela via do impeachment.
"Sei que estamos vivendo horas de preocupação e incerteza", disse o presidente em mensagem divulgada antes da sessão, na qual anunciou que exerceria seu direito de defesa.
Seus advogados pediram prorrogação de 72 horas, com o argumento de que haviam recebido a peça de acusação de 15 páginas e cerca de 300 páginas de anexos às 22h15 da noite anterior, e que menos de doze horas para responder violava o devido processo. O Senado rejeitou o pedido e passou à votação sem debate.
Pela oposição, a senadora Esperanza Martínez descreveu o processo como uma "novela" e advertiu: "A terceira parte da novela é o que vai acontecer depois desta sessão".
O banco na origem da crise
O Banco Central del Paraguay (BCP, o banco central paraguaio) interveio no ueno bank na terça-feira por insolvência. A medida congelou os recursos de cerca de 2,9 milhões de clientes — num país de pouco mais de 6,9 milhões de habitantes — e incluiu depósitos de entidades públicas. Oito diretores foram detidos e os poupadores saíram às ruas em frente ao Congresso, com forte presença policial.
O BCP começou na quinta-feira à noite a pagar a garantia de depósitos, com teto de 10 milhões de guaranis (cerca de USD 1.565) para um primeiro grupo de poupadores que cumprissem as condições. O efeito atravessou a fronteira: na Argentina há trabalhadores suspensos sem salário por causa da queda da instituição.
A crise também levou o ministro do Interior, Enrique Riera, que renunciou. Carlos Humberto Benítez González foi designado interino pelo Decreto 7199.
Um dado ajuda a medir a velocidade do episódio: entre a intervenção no banco, na terça-feira, e a destituição do presidente, na sexta, passaram-se quatro dias.
Com informações de ABC Color, Infobae, Semana, Pauta, El Once e El Sol.




