Argentina e Estados Unidos assinaram na quinta-feira, 24 de setembro de 2026, o memorando que dá início ao Corredor Andes-Atlântico, uma iniciativa conjunta de infraestrutura que prevê mobilizar até US$ 7 bilhões em investimentos ao longo de 2027 para conectar as bacias energéticas e minerais argentinas aos portos do oceano Atlântico.
A assinatura ocorreu no Consulado argentino em Nova York, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas. Pela Argentina assinou o chanceler Pablo Quirno; pelos Estados Unidos, o subsecretário de Estado Christopher Landau. Também participaram do ato o ministro da Economia, Luis Caputo, o presidente e diretor-executivo da YPF, Horacio Marín, e o titular do Export-Import Bank (Exim) americano, John Jovanovic.
O que o corredor conecta
O traçado liga duas regiões produtivas hoje mal conectadas à saída para o mar: a formação de hidrocarbonetos não convencionais de Vaca Muerta, na Patagônia, e as províncias mineradoras do noroeste argentino, onde se concentram os projetos de lítio e cobre.
A conexão é proposta por meio de ferrovias, dutos, portos, redes elétricas e infraestrutura digital. Entre os projetos identificados como prioritários aparecem a recuperação e ampliação de ramais ferroviários — incluído o Belgrano Cargas, já privatizado —, a Hidrovía (hidrovia do rio Paraná), obras portuárias e uma eventual linha ligando Vaca Muerta a Bahía Blanca. O acordo também prevê apoio ao projeto de transmissão elétrica AMBA I.
O documento não distribui valores por obra: fixa o marco financeiro e a lista de prioridades.
O grosso do dinheiro vai para o gás liquefeito
Dos US$ 7 bilhões previstos, cerca de US$ 6 bilhões correspondem a uma proposta do Exim para financiar o Argentina LNG, projeto de exportação de gás natural liquefeito que a YPF desenvolve com a italiana ENI e a emiradense XRG.
A cifra pede cautela: trata-se de uma carta de interesse preliminar e não vinculante, não de um desembolso comprometido. O Exim financia a participação de fornecedores americanos em projetos no exterior — mecanismo que Quirno resumiu ao dizer que o banco "financia fornecedores americanos".
O Argentina LNG prevê duas unidades flutuantes de liquefação diante da costa de Río Negro, com capacidade de 12 milhões de toneladas anuais e entrada em operação estimada para 2031. O investimento inicial ronda os US$ 29 bilhões e chega a cerca de US$ 51 bilhões ao longo da vida útil do projeto.
Lítio, cobre e cadeias de suprimento
O corredor se apoia em um acordo anterior sobre minerais críticos e identifica oportunidades na extração de lítio e cobre, no processamento local de minérios e na diversificação das cadeias globais de suprimento, hoje fortemente concentradas.
Os instrumentos disponíveis incluem empréstimos diretos, garantias de crédito e seguros do Exim e da Development Finance Corporation (DFC). O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também aparece entre as instituições envolvidas.
O que a Argentina se compromete a fazer
Do lado argentino, o memorando incorpora compromissos de previsibilidade regulatória: fortalecimento do marco legal de proteção aos investimentos, regras de concessão transparentes e abertura a empresas e investidores americanos. O governo cita como antecedente o Régimen de Incentivo para Grandes Inversiones (RIGI, regime de incentivo a grandes investimentos), que oferece benefícios fiscais e cambiais de longo prazo.
"Investir na Argentina fortalece a segurança econômica dos Estados Unidos. Os benefícios chegam aos dois países", afirmou Quirno após a assinatura.
O primeiro corredor do G7 nas Américas
O Corredor Andes-Atlântico é apresentado como o primeiro corredor do hemisfério ocidental dentro da Parceria para a Infraestrutura e o Investimento Global do G7, esquema com o qual as economias avançadas buscam oferecer uma alternativa de financiamento aos projetos de infraestrutura da China.
Soma-se assim aos corredores impulsionados entre Índia, Oriente Médio e Europa, na Ásia Central e no Cáucaso, na África subsaariana e nas Filipinas. Washington enquadra a iniciativa, ainda, na busca por rotas energéticas menos expostas às interrupções do transporte marítimo pelo estreito de Ormuz.
Com informações de Infobae, La Nación e ADNSUR.


