A Comissão Europeia vai manter a moratória que desencoraja novas perfurações de petróleo e gás no Ártico, resistindo à campanha da Noruega para derrubá-la. A informação foi publicada nesta segunda-feira (21) pela Euronews, que ouviu um porta-voz do Executivo comunitário: "a nossa abordagem sobre a moratória permanecerá inalterada", disse ele, ao ligar a posição ao esforço do bloco para "enfrentar as mudanças climáticas e a degradação ambiental".
O que é, de fato, a moratória
Não é uma lei. O compromisso nasceu na estratégia da União Europeia para o Ártico adotada em 13 de outubro de 2021 e tem natureza política: o bloco se compromete a não apoiar a extração de novos combustíveis fósseis na região e a defender essa posição nos foros internacionais, sem criar obrigação jurídica para terceiros. A revisão que a Comissão prepara para a estratégia da Vizinhança Setentrional preserva esse desenho em vez de convertê-lo em regra vinculante — o que significa que a decisão pesa como sinal político e como critério de financiamento, não como proibição.
O que a Noruega queria
Oslo é o principal fornecedor de energia do bloco e usou esse peso no argumento. O ministro da Energia, Terje Aasland, afirmou que a "atividade continuada no Mar de Barents serve aos interesses noruegueses e europeus", citando as perturbações no mercado provocadas pelo conflito no Oriente Médio. O chanceler Espen Barth Eide foi mais direto: "não há razões climáticas para tratar de forma diferente o petróleo e o gás produzidos ao norte ou ao sul de uma determinada linha".
A pressão é antiga e organizada. Desde 2011, segundo o diário catalão Ara, 19 ministros noruegueses se reuniram com altos funcionários da União Europeia para tratar do tema, e a enviada especial do bloco para o Ártico, Claude Veron-Reville, reconheceu publicamente a intensidade desse lobby. A Noruega calcula que dois terços dos seus recursos fósseis ainda exploráveis estejam no Ártico, anunciou 70 novos blocos de exploração e registrou cinco descobertas no Mar de Barents no ano passado. A estatal Equinor apoia o aumento da produção.
Os números que enfraquecem o pedido
O argumento de segurança energética esbarra na escala. O gás ártico responde por apenas 1,4% do gás que a União Europeia importa. Uma análise do WWF-Noruega citada pela Euronews estima que o gás de novos poços no Mar de Barents só chegaria ao mercado por volta de 2045 — quando a demanda europeia por gás, nas projeções do próprio bloco, terá caído de 329 bilhões de metros cúbicos, em 2024, para cerca de 85 bilhões, em 2040.
É a contradição central do pedido norueguês: o gás que Oslo quer autorização para buscar agora chegaria depois de o mercado que o justificaria ter encolhido quase três quartos.
Isso não torna a Noruega dispensável no curto prazo — ao contrário. Entre janeiro e junho de 2026, o país respondeu por 54,4% do gás natural liquefeito importado pelo bloco, acima dos 52,1% de 2025, e supre cerca de 30% do gás e 12% do petróleo consumidos na União Europeia. A disputa é sobre as reservas novas e distantes, não sobre o fornecimento de hoje.
O que acontece agora
A Noruega já avisou que seguirá perfurando no Ártico independentemente da posição europeia — a moratória, por não ser vinculante, não a obriga a nada. Organizações ambientais trataram a decisão como uma "vitória importante", sobretudo pelo efeito de precedente: manter a posição preserva o argumento europeu em negociações internacionais sobre o Ártico.
Com informações de Euronews, Ara e Bloomberg.


