A Coreia do Norte rejeitou formalmente a resolução sobre seu programa nuclear aprovada nesta semana pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e afirmou que sua condição de potência nuclear é irreversível. O comunicado foi divulgado neste sábado (19) pela agência estatal KCNA e assinado por Kim Yo-jong, irmã do líder Kim Jong-un e vice-diretora de departamento do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores.
"A AIEA adotou à força uma 'resolução' anti-RPDC que se incomoda com as atividades nucleares legítimas e de autodefesa do nosso país", escreveu Kim Yo-jong, segundo o texto reproduzido pela KCNA. Para ela, a decisão é "mais um caso representativo que expõe os padrões duplos e a parcialidade extremos da agência".
103 a favor, 6 contra, 14 abstenções
A resolução foi aprovada na quinta-feira (17), durante a 70ª Conferência Geral da AIEA, em Viena, por 103 votos a favor, 6 contra e 14 abstenções. Foi uma votação formal, e não a aprovação por consenso que costuma encerrar os debates do organismo. Rússia e China estiveram entre os votos contrários.
Intitulado "Implementação do Acordo de Salvaguardas do TNP entre a Agência e a República Popular Democrática da Coreia", o texto reafirma que a Coreia do Norte não pode ter o estatuto de Estado detentor de armas nucleares sob o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e pede que Pyongyang interrompa imediatamente as atividades ligadas ao programa. A resolução registra preocupação com a operação do reator de Yongbyon e com a ampliação da capacidade de enriquecimento de urânio em mais de uma instalação.
O argumento dos "padrões duplos"
Kim Yo-jong sustentou que a agência ignora o que descreveu como proliferação praticada pelo próprio Ocidente: o armamento nuclear norte-americano posicionado na Europa, os compromissos de dissuasão estendida com a Coreia do Sul e o Japão e a transferência prevista de tecnologia de submarinos nucleares para Seul.
"Não vamos hipotecar, em hipótese alguma, nossa soberania e nosso direito à segurança à 'tolerância' dos EUA e do Ocidente", afirmou.
A simetria que o argumento propõe é discutível — os arranjos citados envolvem países que seguem dentro do TNP, enquanto a Coreia do Norte abandonou o tratado antes de testar sua primeira bomba. Ainda assim, é nesse eixo que Pyongyang vem organizando sua resposta pública a cada resolução da agência, e o comunicado deste sábado repete a fórmula quase sem variação.
Fábricas de munição e uma porta entreaberta
O texto chega no momento em que Kim Jong-un cumpriu uma inspeção de três dias em fábricas de munição e discursou a quadros de propaganda do partido, cobrando métodos novos no que chamou de guerra ideológica contemporânea.
Em sentido oposto, o presidente sul-coreano Lee Jae-myung afirmou que o presidente americano Donald Trump procura o diálogo com Pyongyang e que Seul pretende facilitar eventuais conversas. Nada no comunicado de Kim Yo-jong fecha essa porta: o que ela descarta é a desnuclearização como ponto de partida, não a negociação em si.
Com informações do Korea Times, da Al Jazeera e da SBS.



