A Polícia Nacional e a Guarda Civil da Espanha retiraram nesta sexta-feira (18) cerca de 1.700 migrantes das praias do Trampolín e de Benítez, em Ceuta, e os transferiram para um acampamento de tendas montado na área do porto. A operação começou pouco depois das 6h30 no horário local e foi concluída por volta do meio-dia.
A retirada transcorreu com tensão. Quando os grupos vindos das duas praias convergiram, houve tumulto na praia de Benítez, e policiais dispararam para o alto diante da dificuldade de conter as pessoas, segundo a Euronews. Muitos dos migrantes estavam na rua havia cerca de seis semanas, à espera de uma vaga em abrigo.
Uma conta que não fecha
O problema central da operação é aritmético. O acampamento no porto tem capacidade para cerca de 1.700 pessoas, enquanto as estimativas das autoridades apontavam mais de 4.000 migrantes apenas nas duas praias.
É o quinto ponto de acolhimento temporário aberto pelo governo espanhol desde o início da crise, e o conjunto deles soma cerca de 6.000 vagas. O governo afirma que as novas instalações oferecem chuveiros, banheiros, alimentação e camas.
A escolha do porto é contestada. Ana Alarcón, porta-voz do Sindicato Unificado de Polícia, afirmou que o "porto não é um lugar seguro" e alertou para responsabilidades caso ocorram incidentes. Um tribunal rejeitou o pedido do sindicato para suspender a transferência.
O pano de fundo: 30 de julho
A crise começou na virada de 30 para 31 de julho, quando mais de 70 mil pessoas entraram em Ceuta vindas do Marrocos. A maior parte retornou nos dias seguintes, mas milhares permaneceram.
As contas divergem: o governo local estima que cerca de 13 mil pessoas ficaram na cidade, número bem acima do que informa o governo central. Ceuta tem cerca de 80 mil habitantes em 18,5 km² — a proporção ajuda a entender por que o assunto domina a política espanhola desde então.
Cada migrante precisa ser identificado individualmente antes que se decida sobre pedido de asilo ou devolução, e milhares são menores de idade, com proteção especial prevista em lei. É esse trabalho, moroso, que explica por que a situação se arrasta desde julho.
Disputa política
A gestão da crise opõe o governo socialista de Pedro Sánchez à administração local, do Partido Popular. Depois que a autoridade portuária de Ceuta se recusou a cooperar, o governo central assumiu o controle das instalações do porto — decisão criticada pela direita e pela extrema direita.
O vice-presidente do governo local, Alejandro Ramírez, acusou o governo central de improvisar e citou o salto no número de intervenções no porto, de 80 para mais de mil em cinquenta dias.
Com informações de Euronews, O Tempo, O Povo e La Moncloa.



