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Cultura

Goncourt 2026 vai a Philippe Jaenada, que admitiu ter usado inteligência artificial três vezes no romance

O escritor venceu por 6 votos a 3 no restaurante Drouant com "L'Inconnue du quai de Javel" e contou à France Inter que inseriu no livro uma frase escrita pelo ChatGPT "para brincar com o leitor"

Por Redação RecortNews
O escritor francês Philippe Jaenada no festival literário Le Livre sur la Place, em Nancy, em 2024.
O escritor francês Philippe Jaenada no festival literário Le Livre sur la Place, em Nancy, em 2024.Foto: Gérald Garitan/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O Prix Goncourt, o prêmio literário mais importante da França, foi entregue em 3 de novembro a Philippe Jaenada, 62 anos, por "L'Inconnue du quai de Javel" ("A Desconhecida do Cais de Javel", publicado pela Flammarion em 12 de agosto). A escolha saiu na primeira rodada de votação, por 6 votos a 3, no restaurante Drouant, em Paris, onde a Académie Goncourt anuncia o vencedor desde o início do século passado.

O derrotado na votação final foi Sylvain Prudhomme, com "De l'autre côté du lac" (Minuit). Também estavam na lista final Yannick Haenel ("La solitude des professeurs est infinie", Flammarion) e Clémentine Mélois ("Choses que je croyais perdues", L'Arbalète/Gallimard). O Goncourt paga ao vencedor um cheque simbólico de 10 euros — o que o prêmio garante é a tiragem.

Jaenada sucede Laurent Mauvignier, vencedor de 2025. Ele construiu a carreira sobre casos criminais sem solução: "Sulak" (2013), "La Petite Femelle" (2015) e "La Serpe" (2017). O livro premiado reconstitui o assassinato de Louise Cansot, modelo de pintores morta em Paris em 1949, num crime nunca esclarecido.

As três vezes

Um dia depois do anúncio, em entrevista à rádio France Inter, Jaenada disse que usou inteligência artificial em três momentos da escrita:

  1. inseriu no texto uma frase escrita pelo ChatGPT, segundo ele para "brincar com o leitor" — e contou a existência dessa frase apenas aos jurados, na terça-feira do anúncio;
  2. recorreu à ferramenta para ironizar as respostas absurdas que ela deu sobre um dado técnico;
  3. usou-a em pesquisa técnica.

"Não acho que a IA possa ser contida. Não podemos fingir que ela não existe", disse o escritor, que também afirmou que a máquina "nunca será capaz de escrever um livro com o seu coração, a sua alma, as suas lembranças". Antes de receber o prêmio, ele já havia resumido a posição com uma comparação: "Um diretor de cinema esconderia que usa efeitos especiais?"

A Académie Goncourt, presidida por Philippe Claudel, foi procurada pela imprensa e não comentou o caso de Jaenada.

O precedente que endureceu a temporada

A declaração não cai em terreno neutro. Em setembro, a mesma academia retirou da disputa o romance de estreia do haitiano-canadense Thélyson Orélien, "C'était ça ou mourir", que já havia vendido mais de 35 mil exemplares e ganhado o Prix du roman Fnac. Em comunicado de 25 de setembro, a Académie afirmou que o livro era "com toda a probabilidade, em grande medida produto de uma inteligência artificial", e disse querer mandar "uma mensagem clara" contra textos gerados com ajuda de máquina.

A suspeita partiu do jornalista Samuel Fitoussi, que submeteu o texto à ferramenta de detecção Pangram — cujo resultado apontou geração automática em boa parte do livro. A precisão desse tipo de software é objeto de contestação. Em outubro, Orélien classificou as acusações como "calúnia e heresia" e afirmou que "nenhuma frase deste livro foi criada por uma máquina", embora tenha reconhecido plágio em trabalhos anteriores. A editora canadense Boréal encerrou depois a parceria com o autor e decidiu não reimprimir a obra.

A diferença de tratamento entre os dois casos virou argumento nas redes sociais francesas, com acusações de peso duplo — de um lado, um autor consagrado que anuncia o uso e é premiado; de outro, um estreante excluído por suspeita. O que separa os casos, na descrição da própria academia, é a escala: uma frase declarada, num caso; um livro inteiro atribuído à máquina, no outro.

Com informações da Euronews, da Livres Hebdo e da agência PA, além do comunicado da Académie Goncourt de 25 de setembro.