O Ministerio de Educación y Ciencias (MEC, Ministério da Educação e Ciências) do Paraguai interrompeu a circulação de um conjunto de livros escolares para adolescentes e recolheu os exemplares que já estavam nas salas de aula, depois que uma leitura sobre Adolf Hitler e vários trechos sobre namoro e vestimenta provocaram duas semanas de reclamações de parlamentares, organizações estudantis, da comunidade judaica paraguaia e da Defensoría del Pueblo (ouvidoria nacional).
Os materiais pertencem ao projeto Ñe'ẽry — "nascente de palavras", em guarani —, concebido para reforçar a compreensão de leitura, e carregam conteúdos do programa de Educación de la Afectividad y la Sexualidad en las Escuelas (EASE, educação da afetividade e da sexualidade nas escolas). Segundo o jornal ABC Color, os livros chegaram a cerca de cinquenta colégios de quatro dos dezessete departamentos do país, no que o MEC descreve como uma fase de teste regional, e não uma distribuição nacional.
Os trechos em discussão
As objeções não são de método pedagógico, e sim de frases concretas. Entre os trechos questionados, os textos aconselham as meninas a "dejar pasar los coqueteos de los jóvenes" (deixar passar as paqueras dos rapazes) e a se vestir "bonita, pero no provocativa" (bonita, mas não provocativa), e sugerem que consultem os homens da família sobre a aprovação de seus relacionamentos. Aos meninos, segundo as críticas, passa-se a ideia de que podem dizer à namorada "cómo se va a vestir" (como ela vai se vestir). Outra lição afirma que "el que obedece no se equivoca" (quem obedece não se engana).
O episódio que acendeu a polêmica é um exercício de leitura intitulado "La historia de Adolfo", que descreve Adolf Hitler como um "político famoso" e pergunta quais eram os "defectos" (defeitos) que ele via nos judeus.
"Não cabia"
O ministro da Educação, Luis Ramírez, reconheceu o erro em 20 de outubro, anunciou a retirada da leitura sobre Hitler e abriu uma investigação interna sobre a cadeia de revisão que deixou o conteúdo passar. Disse que o trecho "no corresponde y no correspondía que se tome" (não cabe e não cabia que fosse incluído) e que mais de 300 páginas haviam sido corrigidas, mas que "en los últimos cursos faltó mucha más precisión" (nas últimas séries faltou muito mais precisão). Sobre a responsabilidade, foi direto: "De última, yo soy el responsable" (no fim das contas, eu sou o responsável).
O programa EASE, lembrou, foi desenvolvido ao longo de quase dois anos, com revisões cruzadas das quais participaram os ministérios da Saúde, da Infância e da Mulher, além de mesas de pais. A investigação deve apurar responsabilidades e eventuais sanções administrativas ou mudanças na equipe curricular.
A autora dos textos, María Judith Turriaga, defendeu seu trabalho e sustentou que o exercício sobre Hitler foi tirado de contexto; em uma mensagem à comunidade escolar, ligou-o a uma comparação com uma menina com síndrome de Down. O ouvidor nacional, Rafael Ávila, pediu uma "revisión rigurosa y responsable" (revisão rigorosa e responsável) e advertiu que o material didático não pode normalizar a discriminação nem a violência. Integrantes da comunidade judaica paraguaia pediram uma reunião com Ramírez, que os recebeu.
A cobrança política
A senadora de oposição Esperanza Martínez, que levou o exercício sobre Hitler às redes sociais e o chamou de "burrada", sustenta que as mensagens sobre namoro e vestimenta refletem "visiones machistas y patriarcales" (visões machistas e patriarcais) porque transferem às mulheres a responsabilidade de evitar a violência de gênero. Citou 37 feminicídios no Paraguai em 2025 e cerca de vinte homicídios ligados a feminicídio até outubro, e relacionou a lição sobre a obediência aos 35 anos de ditadura de Alfredo Stroessner.
A Unión Nacional de Centros de Estudiantes e o coletivo Discafem — que também contestou o tratamento dado à deficiência nos materiais — pedem a retirada completa dos textos das instituições públicas, não apenas da leitura sobre Hitler. Os ministérios da Saúde Pública e da Infância e Adolescência e a Defensoría del Pueblo apresentaram observações.
O que vem agora
A investigação e a revisão seguem abertas: não há versões corrigidas, decisões finais nem sanções anunciadas. Enquanto isso, o MEC convocou para sexta-feira, 6 de novembro, às 10h30, em Assunção, uma apresentação dos manuais do EASE dirigida exclusivamente a diretores e representantes de instituições de ensino privadas, dentro da "Expo Ministerios". A exposição ficará a cargo do ex-vice-ministro Fernando Griffith, que trabalhou na revisão, edição e adaptação dos manuais.
O portal paraguaio RDN estimou o custo dos materiais em US$ 7,5 milhões financiados pela Itaipu Binacional — a hidrelétrica que o Paraguai administra junto com o Brasil —, e uma publicação citada pelo próprio veículo menciona US$ 7,3 milhões para o projeto Ñe'ẽry.
Com informações de ABC Color, La Nación (Paraguai) e RDN.




