A pobreza na Argentina voltou a subir. Segundo o relatório de incidência da pobreza e da indigência divulgado pelo Instituto Nacional de Estadística y Censos (Indec, o instituto nacional de estatística) em 24 de setembro de 2026, 32,3% das pessoas que vivem nos 31 aglomerados urbanos pesquisados ficaram abaixo da linha da pobreza no primeiro semestre do ano: 9,73 milhões de pessoas.
É um salto de 4,1 pontos percentuais em relação ao segundo semestre de 2025, quando a medição havia dado 28,2%. Medida por domicílios, a pobreza passou de 21,0% para 24,4%, ou 2,498 milhões de lares.
A indigência — os domicílios cuja renda não cobre sequer a cesta básica de alimentos — subiu de 6,3% para 7,5% das pessoas, cerca de 2,249 milhões, e de 4,8% para 5,6% dos domicílios, cerca de 575 mil.
As crianças, as mais atingidas
O retrato por faixa etária é o mais duro do relatório. Entre as pessoas de 0 a 14 anos, 44,5% integram domicílios abaixo da linha da pobreza: quase uma em cada duas crianças. No outro extremo, entre os maiores de 65 anos a incidência é de 14,8%, três vezes menor.
Por região, o Nordeste argentino lidera, com 41,5% de pessoas pobres, seguido por Cuyo, com 36,7%. A Patagônia registra a menor incidência, 28,4%. Entre os aglomerados individuais, Concordia, na província de Entre Ríos, aparece como o mais castigado, com 56,2%, segundo os dados por aglomerado reproduzidos pelos jornais argentinos.
A renda perdeu para a cesta
O motivo aritmético do retrocesso está no próprio relatório. A renda familiar total média dos domicílios pobres foi de ARS 922.755, enquanto a cesta básica total (CBT) de que esse mesmo grupo precisaria para deixar de ser pobre chegou a ARS 1.440.395. A distância entre uma coisa e outra — o hiato de pobreza — foi de 35,9%.
No semestre, a renda dos domicílios cresceu 11,5%, muito atrás da cesta básica de alimentos (21,4%) e da cesta básica total (19,6%). Quando o custo da cesta corre ao dobro da velocidade da renda, a linha se move mais rápido que os salários, e domicílios que antes ficavam logo acima dela caem para o outro lado.
O economista Leopoldo Tornarolli, do Cedlas, atribuiu o aumento à retomada inflacionária entre maio de 2025 e março de 2026 e ao fraco dinamismo do emprego formal, em declarações ao jornal La Nación. Agustín Salvia, do Observatório da Dívida Social da UCA, apontou no mesmo jornal a persistência de um núcleo estrutural de pobreza crônica que nenhuma das duas séries — a que sobe e a que desce — chega a alcançar.
A leitura oficial
O ministro da Economia, Luis Caputo, enquadrou a alta como um movimento passageiro e recorreu a uma comparação mais longa: em relação ao primeiro semestre de 2024, quando a medição havia dado 52,9%, a pobreza caiu mais de vinte pontos. Os dois números são do mesmo órgão e da mesma série; a diferença está no ponto de partida que cada leitura escolhe.
O que esse número mede, exatamente
O dado do Indec não é uma fotografia do país inteiro. Vem da Encuesta Permanente de Hogares (a pesquisa domiciliar contínua argentina), que cobre 31 aglomerados urbanos — cerca de dois terços da população do país — e deixa de fora as localidades pequenas e a população rural. Por isso o instituto informa 9,73 milhões de pessoas pobres, enquanto as projeções para o total nacional publicadas pela imprensa argentina ficam em torno de 15,5 milhões.
A próxima medição, referente ao segundo semestre de 2026, sai por volta de março de 2027.
Com informações do Indec (relatório "Incidencia de la pobreza y la indigencia en 31 aglomerados urbanos", primeiro semestre de 2026), La Nación e Infobae.




