Sete grupos armados que atuam em diferentes regiões da Etiópia — alguns deles inimigos declarados até pouco tempo atrás — anunciaram no domingo (21) que passam a agir de forma coordenada contra o governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed. A nova frente se chama Aliança das Forças Populares da Etiópia pela Sobrevivência, ou apenas Aliança pela Sobrevivência.
"Acabamos de formar uma aliança, estamos colaborando com vários grupos, e nosso objetivo é remover o regime", disse Amanuel Assefa, vice-presidente da Frente Popular de Libertação do Tigré (TPLF) e porta-voz do novo bloco, em declaração reproduzida pela Euronews. A presidência da aliança ficou com Zemene Kasse, um dos comandantes das milícias Fano, da região de Amhara.
Quem está dentro
Além da TPLF e do movimento nacional Fano, integram a aliança o Exército de Libertação Oromo (OLA), a Frente Nacional de Libertação do Ogaden (ONLF), a Frente Revolucionária Democrática de Unidade Afar (Ugugumo), o Movimento de Libertação do Povo Benishangul e o Movimento Democrático do Povo Gumuz.
Somados, os sete grupos têm base em metade dos 12 estados regionais da Etiópia — um dado que ajuda a medir o alcance geográfico do que está sendo anunciado, ainda que não diga nada sobre a capacidade militar efetiva de cada um.
No comunicado de fundação, os grupos acusam o governo de impor um "governo ditatorial" e de empurrar o país para a dissolução. A proposta apresentada é a de um governo de transição regido por uma carta de princípios, com três objetivos: encerrar as guerras em curso, garantir direitos e abrir um processo de diálogo nacional.
Inimigos recentes
O ponto que torna o anúncio incomum é a composição. A TPLF e as milícias Fano estiveram em lados opostos durante a guerra do Tigré, entre 2020 e 2022, um conflito que deixou cerca de 600 mil mortos. As forças de Amhara combateram ao lado do exército federal contra os tigrínios; hoje, os dois lados dizem ter um adversário comum.
Segundo a Al Jazeera, as conversas entre os grupos duravam mais de um ano antes do anúncio.
O Acordo de Pretória, assinado em novembro de 2022, encerrou formalmente a guerra do Tigré. A TPLF, porém, nunca concluiu a desmobilização prevista no texto e, em maio de 2026, reinstalou por conta própria o conselho regional do Tigré — movimento que, na prática, esvaziou o acordo.
Fora do Tigré, a Etiópia convive com combates em Oromia desde 2018 e em Amhara desde 2023.
O que dizem os analistas
O professor Kjetil Tronvoll, especialista no país ouvido pela Euronews, manifestou ceticismo quanto à viabilidade militar da aliança, mas ponderou que um conflito coordenado em várias frentes ao mesmo tempo representaria um problema real para as forças federais, hoje equipadas com drones.
Até a publicação desta matéria, o governo etíope não havia comentado publicamente o anúncio.
A violência no país não se restringe às áreas em que atuam os grupos da aliança. Em 18 de setembro, os Médicos Sem Fronteiras informaram que confrontos na região de Gambella, perto da fronteira com o Sudão do Sul, deixaram 12 mortos e dezenas de feridos.
Com informações da Al Jazeera e da Euronews.



