As diferenças de aprendizagem entre crianças brancas, pardas e pretas no Brasil já estão formadas antes do primeiro dia do ensino fundamental. É o que mostra a análise da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal sobre os dados brasileiros do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar da Criança (IELS), conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgada nesta quarta-feira (4).
Avaliadas aos 5 anos, ainda na pré-escola, as crianças pretas somaram 423 pontos em numeracia emergente — a noção inicial de quantidade, contagem e comparação. As pardas ficaram com 447 e as brancas, com 463. A diferença de 40 pontos entre os dois extremos equivale a 0,37 desvio-padrão e é estatisticamente significativa.
Em memória de trabalho — a capacidade de reter e manipular informação por alguns segundos, base de quase todo aprendizado escolar que vem depois — o padrão se repete em escala menor: 462 pontos para as pretas, 463 para as pardas e 471 para as brancas, também com significância estatística.
Onde a conta dobra
O recorte mais duro não é o de cor sozinho, e sim o de cor combinado com nível socioeconômico. Entre crianças pretas, pardas ou indígenas de nível socioeconômico baixo e crianças brancas ou amarelas de nível alto, a distância é de:
- 84 pontos em numeracia (416 contra 500);
- 55 pontos em literacia (477 contra 532);
- 55 pontos em memória de trabalho (441 contra 496).
Para dimensionar: a escala do IELS tem média internacional de 500 pontos e desvio-padrão de 100. A diferença de 84 pontos em matemática, portanto, é quase um desvio-padrão inteiro — aberto antes dos 6 anos de idade.
Há também um dado que ajuda a separar o que é efeito de renda e o que é efeito de racismo. Em literacia emergente, a distância entre crianças brancas (507 pontos) e pretas (490) é de 17 pontos e não é estatisticamente significativa; em numeracia, com os mesmos grupos, é. A desvantagem não se distribui igualmente por todos os domínios, o que aponta para gargalos específicos — e, portanto, endereçáveis — em vez de um atraso geral.
Como o estudo foi feito
O IELS brasileiro foi aplicado no Ceará, no Pará e em São Paulo, com amostra representativa de cada estado. Foram planejadas 240 escolas em 91 municípios e coletados dados em 210 delas, taxa de 87,5%. Participaram 2.598 crianças de 3.017 elegíveis (86,1%), com idade média de 5,5 anos.
A avaliação não tem formato de prova: são quatro atividades lúdicas e individuais em tablet, de até 15 minutos cada, distribuídas em dois dias. Pais ou responsáveis responderam a questionários (91,3% de adesão) e professoras também (93,4%). O trabalho correu de 2022 a 2026, com parceria técnica do LaPOpE/UFRJ e aprovação do comitê de ética da UFRJ em fevereiro de 2024.
O que a fundação diz
A instituição sustenta que raça, cor ou nível socioeconômico não determinam a capacidade de aprender: o que influencia o desenvolvimento são as condições de vida e as oportunidades oferecidas. Segundo Marina Fragata Chicaro, diretora de Políticas Públicas da fundação, desigualdades não enfrentadas na primeira infância tendem a se acumular ao longo da vida. Ela afirma que investir nessa etapa, enfrentando as desigualdades étnico-raciais, é "um dever histórico e constitucional".
Entre as recomendações estão o monitoramento sistemático dos dados por raça e cor, a combinação de políticas universais com políticas focalizadas, formação continuada de professores, ampliação das oportunidades de numeracia e integração entre educação, saúde e assistência social. O estudo cita como marcos já vigentes a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância, a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola, e o novo Plano Nacional de Educação.
Com informações da Agência Brasil e do relatório "Aprendizagem, Bem-Estar e Desigualdades na Primeira Infância em 3 Estados Brasileiros", da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com o LaPOpE/UFRJ.




