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Aos 5 anos, crianças pretas ficam 40 pontos atrás das brancas em numeracia, mostra estudo da OCDE feito no Brasil

Quando cor e renda se somam, a distância chega a 84 pontos — 416 contra 500. O IELS avaliou 2.598 crianças em 210 pré-escolas do Ceará, do Pará e de São Paulo

Por Redação RecortNews
Crianças em atividade de ciências no pátio da EMEF Espaço de Bitita, em São Paulo, em junho de 2023.
Crianças em atividade de ciências no pátio da EMEF Espaço de Bitita, em São Paulo, em junho de 2023.Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

As diferenças de aprendizagem entre crianças brancas, pardas e pretas no Brasil já estão formadas antes do primeiro dia do ensino fundamental. É o que mostra a análise da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal sobre os dados brasileiros do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar da Criança (IELS), conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgada nesta quarta-feira (4).

Avaliadas aos 5 anos, ainda na pré-escola, as crianças pretas somaram 423 pontos em numeracia emergente — a noção inicial de quantidade, contagem e comparação. As pardas ficaram com 447 e as brancas, com 463. A diferença de 40 pontos entre os dois extremos equivale a 0,37 desvio-padrão e é estatisticamente significativa.

Em memória de trabalho — a capacidade de reter e manipular informação por alguns segundos, base de quase todo aprendizado escolar que vem depois — o padrão se repete em escala menor: 462 pontos para as pretas, 463 para as pardas e 471 para as brancas, também com significância estatística.

Onde a conta dobra

O recorte mais duro não é o de cor sozinho, e sim o de cor combinado com nível socioeconômico. Entre crianças pretas, pardas ou indígenas de nível socioeconômico baixo e crianças brancas ou amarelas de nível alto, a distância é de:

  • 84 pontos em numeracia (416 contra 500);
  • 55 pontos em literacia (477 contra 532);
  • 55 pontos em memória de trabalho (441 contra 496).

Para dimensionar: a escala do IELS tem média internacional de 500 pontos e desvio-padrão de 100. A diferença de 84 pontos em matemática, portanto, é quase um desvio-padrão inteiro — aberto antes dos 6 anos de idade.

Há também um dado que ajuda a separar o que é efeito de renda e o que é efeito de racismo. Em literacia emergente, a distância entre crianças brancas (507 pontos) e pretas (490) é de 17 pontos e não é estatisticamente significativa; em numeracia, com os mesmos grupos, é. A desvantagem não se distribui igualmente por todos os domínios, o que aponta para gargalos específicos — e, portanto, endereçáveis — em vez de um atraso geral.

Como o estudo foi feito

O IELS brasileiro foi aplicado no Ceará, no Pará e em São Paulo, com amostra representativa de cada estado. Foram planejadas 240 escolas em 91 municípios e coletados dados em 210 delas, taxa de 87,5%. Participaram 2.598 crianças de 3.017 elegíveis (86,1%), com idade média de 5,5 anos.

A avaliação não tem formato de prova: são quatro atividades lúdicas e individuais em tablet, de até 15 minutos cada, distribuídas em dois dias. Pais ou responsáveis responderam a questionários (91,3% de adesão) e professoras também (93,4%). O trabalho correu de 2022 a 2026, com parceria técnica do LaPOpE/UFRJ e aprovação do comitê de ética da UFRJ em fevereiro de 2024.

O que a fundação diz

A instituição sustenta que raça, cor ou nível socioeconômico não determinam a capacidade de aprender: o que influencia o desenvolvimento são as condições de vida e as oportunidades oferecidas. Segundo Marina Fragata Chicaro, diretora de Políticas Públicas da fundação, desigualdades não enfrentadas na primeira infância tendem a se acumular ao longo da vida. Ela afirma que investir nessa etapa, enfrentando as desigualdades étnico-raciais, é "um dever histórico e constitucional".

Entre as recomendações estão o monitoramento sistemático dos dados por raça e cor, a combinação de políticas universais com políticas focalizadas, formação continuada de professores, ampliação das oportunidades de numeracia e integração entre educação, saúde e assistência social. O estudo cita como marcos já vigentes a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância, a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola, e o novo Plano Nacional de Educação.

Com informações da Agência Brasil e do relatório "Aprendizagem, Bem-Estar e Desigualdades na Primeira Infância em 3 Estados Brasileiros", da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com o LaPOpE/UFRJ.