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Área urbanizada das favelas vai de 60,2 mil a 151,7 mil hectares em 40 anos, e o verde que elas tinham a mais virou um déficit

Em 1985 as comunidades tinham 43% mais vegetação por hectare urbanizado que o resto da cidade; em 2025 têm 15% menos. O país reúne 12,3 mil favelas em 651 municípios, segundo o MapBiomas

Por Redação RecortNews
Casas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, em imagem de fevereiro de 2023.
Casas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, em imagem de fevereiro de 2023.Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A área urbanizada das favelas e comunidades brasileiras passou de 60,2 mil hectares em 1985 para 151,7 mil em 2025 — alta superior a 150% em quatro décadas. O dado vem do novo recorte urbano da Coleção 11 do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira (4), que reconstrói ano a ano a cobertura e o uso da terra no país desde 1985.

O número que muda a leitura, porém, não é o do crescimento. É o do verde.

A inversão

Em 1985, as favelas tinham 43% mais vegetação por hectare urbanizado do que o restante das áreas urbanas brasileiras. Em 2025, têm 15% menos. A densidade de vegetação intraurbana nessas comunidades caiu de 0,060 para 0,040 hectare por hectare urbanizado — uma perda de cerca de um terço —, enquanto fora delas o indicador subiu perto de 10%.

A explicação está no ritmo de adensamento. Dentro das favelas, a vegetação intraurbana cresceu 1,7 vez em 40 anos; fora, 2,6 vezes. Já as áreas urbanizadas sem vegetação avançaram 2,6 vezes nas comunidades, contra 2,3 vezes no resto da cidade. Ou seja: onde havia mais verde, ele foi coberto mais depressa.

"Pela primeira vez na série, a área urbanizada sem vegetação supera a área da vegetação urbana", afirmou Júlio Cesar Pedrassoli, coordenador do tema Urbano do MapBiomas. No país inteiro, a vegetação urbana — intraurbana e periurbana somadas — recuou de 6,5 milhões para 4,1 milhões de hectares, queda de 35,9%, enquanto a área urbanizada sem vegetação chegou a 4,24 milhões de hectares.

O tamanho do mapa

O levantamento contabiliza 12,3 mil favelas em 651 municípios em 2025. Dessa urbanização, 60,3% surgiu depois de 1985 e 42,4% pelo menos dobrou de tamanho no período.

A distribuição é desigual entre as regiões. O Norte concentra 27,9% da área ocupada por favelas, embora responda por apenas 9,4% da área urbanizada do país. Manaus tem a maior área urbanizada em comunidades — 10,5 mil hectares em 235 delas. São Paulo lidera em quantidade, com 1.359 favelas em cerca de 6 mil hectares.

No conjunto, a área urbanizada brasileira cresceu 132%, de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares, e passou a ocupar 0,5% do território nacional, ante 0,2% em 1985. A fatia das favelas nesse total subiu pouco: de 3,2% para 3,4%.

Sobre o que elas cresceram

Dentro das comunidades, 54% da expansão aconteceu sobre áreas naturais. Fora delas, o avanço se deu sobretudo sobre pastagem, que respondeu por 38% do total. Em números absolutos, porém, a conversão de vegetação natural foi 17,5 vezes maior fora das favelas: 866,8 mil hectares, contra 49,5 mil hectares dentro.

O que isso faz com o calor e com a chuva

A perda de verde tem efeito térmico medido. Nos setores com até 10% de cobertura vegetal, a intensidade média das ilhas de calor no verão chega a 5 °C — e a diferença em relação a áreas não urbanizadas com cobertura verde pode alcançar 7 °C. Onde a vegetação cobre 80% do setor, a diferença cai para 1,1 °C. A medição é feita pela temperatura da superfície do solo.

A exposição a desastres também subiu: a área urbanizada em favelas situada em zonas de suscetibilidade muito alta a inundação mais que dobrou, e a localizada em zonas suscetíveis a deslizamentos cresceu 12%. O MapBiomas ressalva que esses indicadores descrevem a característica do terreno, não a contagem de desastres ocorridos.

"Para adaptar as cidades às mudanças climáticas, precisamos olhar para onde o verde se perdeu", disse Pedrassoli.

A coleção traz ainda um dado lateral que ajuda a dimensionar o espalhamento urbano: entre 2013 e 2025, a luz artificial noturna mapeada cresceu 37%, o equivalente a 1,7 milhão de hectares. O Sudeste responde por 40% da área iluminada; o Mato Grosso teve o maior crescimento proporcional, de 97%.

Com informações da Agência Brasil, do MapBiomas e do jornal O Tempo/Folhapress.