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Dengue em nível epidêmico já atinge 292 microrregiões do Brasil, quase o triplo de 2006, e a Fiocruz diz que a expansão é irreversível

A febre oropouche passou de 12 mil infecções no ano passado, em 23 estados e no DF, depois de ficar quase restrita à Amazônia até 2023. A hantavirose soma 530 casos e 212 mortes desde 2016, letalidade de 40%.

Por Redação RecortNews
Um mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, em imagem macro feita em 2023. Foto de arquivo.
Um mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, em imagem macro feita em 2023. Foto de arquivo.Foto: Fedaro/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A dengue deixou de ser um problema de verão tropical e virou um problema de clima. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, cruzou a incidência da doença com dados climáticos entre 2006 e 2024 e chegou a um número que resume a mudança: as microrregiões brasileiras em nível epidêmico saltaram de 110 para 292 no período — o equivalente a 54% do país. Os outros 46% ficaram em incidência média ou baixa.

Para os autores, não há volta. "O processo de expansão da área de transmissão da dengue parece ser irreversível", escrevem.

O sul entrou no mapa

Os casos que melhor ilustram a virada estão fora do eixo tradicional da doença. O Rio Grande do Sul registrou em 2024 quase 210 mil infecções confirmadas e 281 mortes por dengue — um estado onde o primeiro caso não importado só apareceu em 2007. Na Bahia, foram cerca de 163 mil casos e 188 mortes no mesmo ano.

O infectologista Celso Granato, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), explica por que o calor acelera o ciclo: o Aedes aegypti bate as asas mais rápido em temperaturas altas, o que aumenta a frequência das picadas. "Quando está muito calor, eles têm que bater a asinha mais rapidamente para conseguir voar", diz. Os ovos, acrescenta, resistem a períodos longos de seca: "Eles colocam ovos com uma casca muito resistente, que podem permanecer por anos na natureza".

A expansão não é só brasileira. Os Estados Unidos continentais atravessam o maior surto de dengue já registrado no país, e França e Itália notificaram casos autóctones neste ano.

Enchente e queimada também adoecem

Dois eventos extremos recentes deixaram rastro epidemiológico. Depois das enchentes no Rio Grande do Sul, a leptospirose disparou. "No Rio Grande do Sul, após o desastre das chuvas, aumentou muitas vezes a frequência de leptospirose", afirma Granato.

As queimadas aparecem na conta da hantavirose — a síndrome cardiopulmonar causada pela cepa brasileira do vírus soma 530 infecções confirmadas desde 2016, com 212 mortes, uma letalidade de 40%. "Quando ocorrem queimadas, os roedores infectados entram na casa das pessoas e causam essa doença", diz o infectologista, descrevendo a fuga dos roedores para dentro das residências.

A febre oropouche é o caso mais rápido de expansão. Até 2023 era praticamente restrita à região amazônica; no ano passado, passou de 12 mil infecções, espalhadas por 23 estados e o Distrito Federal.

Fungos que aprenderam a suportar 37 graus

A temperatura corporal humana funciona como barreira contra a maior parte dos fungos ambientais. "95% dos fungos que estão no ambiente não conseguem crescer nessa temperatura", disse Sarah Gonçalves Tavares, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), no Congresso Brasileiro de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial. O aquecimento do ambiente estreita essa barreira.

Os exemplos citados por ela estão todos dentro de hospitais. A Candida auris provoca surtos hospitalares com letalidade de 40% a 60%. O Aspergillus teve a primeira infecção brasileira registrada na Bahia, em 2020, e desde então foram 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde: de 146 pacientes colonizados, 56 morreram, e as infecções que chegaram à corrente sanguínea tiveram letalidade de 82%. Há ainda o Trichophyton indotineae, fungo de pele identificado em 2022 que já apresenta resistência a antifúngicos.

A pesquisadora pondera que o risco se concentra em quem já está fragilizado: "Uma pessoa sadia dificilmente vai desenvolver uma infecção por esse tipo de fungo".

A previsão de atuação do El Niño sobre o Brasil tende a aumentar a frequência de eventos extremos — e, com ela, o risco de novos surtos.

Com informações da Agência Brasil e do estudo da Fiocruz publicado na Scientific Reports.