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RDC começa o ensaio clínico Tumaini contra o ebola no maior surto da história do país, com 9.704 casos e 4.687 mortes

Primeiros participantes foram vacinados na sexta-feira (23) em Bunia; nenhuma vacina está aprovada contra a cepa Bundibugyo, responsável pelo surto, e a letalidade está em 48,3%

Por Redação RecortNews
Cruzamento entre os bairros Ngezi e Lumumba, na comuna de Mbunya, em Bunia, capital da província de Ituri, em 2022.
Cruzamento entre os bairros Ngezi e Lumumba, na comuna de Mbunya, em Bunia, capital da província de Ituri, em 2022.Foto: Edvac/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Os primeiros participantes do ensaio clínico Tumaini — "esperança", em suaíli — foram vacinados na sexta-feira (23) em Bunia, capital da província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo (RDC). É a primeira tentativa de medir, em pleno surto, se existe vacina capaz de proteger contra a cepa Bundibugyo do vírus ebola, para a qual nenhum imunizante está aprovado.

O surto que corre na RDC desde maio é o maior e mais letal da história do país e o segundo maior já registrado no mundo, atrás apenas da epidemia da África Ocidental de 2014 a 2016.

Os números do surto

As autoridades de saúde congolesas contabilizavam 9.704 casos confirmados e 4.687 mortes até 20 de outubro, com os dados divulgados na noite da quarta-feira anterior. A letalidade está em 48,3% — quase uma morte a cada dois casos confirmados.

Os promotores do ensaio divulgaram números ligeiramente distintos, de 9.552 casos e 4.602 mortes até 21 de outubro, diferença usual entre balanços com critérios de classificação e cortes de data diferentes.

O surto foi declarado oficialmente em 15 de maio de 2026. Dois dias depois, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de importância internacional, e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças da África (Africa CDC) decretaram, mais tarde, emergência de saúde pública de segurança continental. Ituri é a província mais atingida.

Como o ensaio funciona

O Tumaini é um estudo de fase 2/3 com desenho de plataforma adaptativa: em vez de um protocolo por vacina, um único protocolo abriga vários candidatos, que podem entrar e sair conforme os resultados. É o formato que permite testar imunizantes em meio a um surto em andamento, quando não há tempo de montar um estudo novo para cada produto.

A estratégia de aplicação é a vacinação em anel, que imuniza os contatos de casos confirmados e as pessoas expostas em torno deles — o grupo de maior risco de infecção. O ensaio vai avaliar segurança, resposta imunológica e eficácia.

A primeira vacina incluída é a Ervebo, já licenciada contra o ebola da cepa Zaire, mas sem eficácia comprovada contra a Bundibugyo. Candidatos desenvolvidos especificamente contra a Bundibugyo pela Moderna e pela Universidade de Oxford, em parceria com o Serum Institute of India, devem entrar no estudo em breve. Esses candidatos são financiados pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI), que também apoia o ensaio.

Quem conduz

O estudo é copatrocinado e codirigido pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB) da RDC e pelo Instituto de Saúde Global da Universidade de Antuérpia, na Bélgica. A condução nacional cabe ao Ministério da Saúde congolês, com um comitê de direção encarregado de articular o ensaio com a resposta ao surto. A escolha das vacinas que entram na plataforma é feita de forma independente por um grupo consultivo técnico da OMS, e as adaptações do protocolo precisam ser validadas pela ACOREP, a autoridade reguladora congolesa.

O que dizem os responsáveis

Chikwe Ihekweazu, diretor executivo do Programa de Emergências Sanitárias da OMS, afirmou que o lançamento "marca um passo decisivo para estabelecer se as vacinas candidatas podem efetivamente proteger as pessoas". Mohamed Janabi, diretor regional da OMS para a África, disse que o ensaio vai produzir "evidências cruciais" sobre os candidatos e, ao mesmo tempo, reforçar a resposta ao surto e a preparação para os próximos.

O professor Steve Ahuka-Mundeke, responsável pela resposta de campo na RDC, saudou o ensaio como "uma etapa importante para responder às necessidades urgentes das comunidades afetadas" e acrescentou que a prioridade segue sendo "interromper a transmissão e salvar vidas", com a pesquisa coordenada com as ações em campo.

Com informações da agência Xinhua, do portal congolês Actualite.cd e da Organização Mundial da Saúde.