O Cabildo de El Hierro — o governo da menor ilha habitada das Canárias — decretou emergência migratória e pediu socorro às instâncias superiores, depois de uma semana de chegadas que não tem paralelo recente no arquipélago.
Desde o primeiro dia de novembro, mais de 3.300 pessoas desembarcaram na ilha em cerca de 30 embarcações, segundo as autoridades locais. Para dimensionar: El Hierro tem pouco mais de 11.400 moradores. Em seis dias, chegou o equivalente a quase 30% da população da ilha.
O decreto foi assinado pelo presidente do Cabildo, Alpidio Armas, na sexta-feira, 6 de novembro. No sábado, 7, ele disse à televisão espanhola que a situação "se agravou nos últimos dias" e que a ilha "não pode enfrentar isso sozinha". A declaração de emergência, explicou, serve sobretudo para criar uma moldura formal de cooperação com o governo das Canárias e com o Estado espanhol.
O que a ilha está pedindo
O pedido não é de dinheiro, e sim de gente e de logística. O decreto do Cabildo pede:
- pessoal e rotação de turnos para que os trabalhadores do Salvamento Marítimo, do Serviço Canário de Saúde, das forças de segurança, da Cruz Vermelha e das ONGs possam descansar;
- transferências coordenadas das pessoas que chegam para ilhas com mais capacidade de acolhimento;
- reforço das instalações de primeira acolhida, para aliviar o Centro de Acolhida Temporária de Estrangeiros de San Andrés;
- atenção às necessidades de La Restinga, o povoado portuário onde os barcos atracam — moradores, comércio e os setores da pesca e do mergulho.
Armas descreveu como "indesejáveis" as condições a que chegou o hospital da ilha. Ônibus foram desviados para a operação migratória e profissionais de saúde foram trazidos de outras ilhas.
O presidente do governo regional, Fernando Clavijo, havia dito na sexta-feira que a situação é "absolutamente insustentável" e que o ritmo de chegadas se aproxima do recorde de 2024 — em alguns dias, acima dele.
A rota mais longa e mais letal
A rota atlântica, da África Ocidental até as Canárias, é uma das travessias migratórias mais mortais do mundo. O Salvamento Marítimo resgatou 3.261 pessoas nas águas do arquipélago nos seis primeiros dias de novembro. Nas últimas semanas, ao menos nove pessoas morreram nas proximidades das ilhas; nesta semana, dois corpos foram encontrados num barco a caminho das Canárias e outras cinco pessoas teriam morrido durante a viagem, segundo relatos de sobreviventes recolhidos pela agência AFP.
O número anual, porém, vinha caindo. Depois do recorde de mais de 46 mil chegadas em 2024, o reforço da vigilância e a cooperação com países de origem e de trânsito derrubaram o fluxo: entre janeiro e outubro deste ano, 13.327 pessoas chegaram por mar à Espanha de forma irregular, 5,5% menos que no mesmo período do ano passado, segundo o Ministério do Interior espanhol.
A explicação para o pico de novembro, portanto, não está no volume total, mas na geografia. O patrulhamento ao largo do Senegal, da Mauritânia e do Marrocos empurrou as partidas para mais ao sul — Gâmbia, Guiné-Bissau e Guiné —, o que alonga a travessia e faz as embarcações desembocarem justamente em El Hierro, a ilha mais ocidental e meridional do arquipélago. No sábado, a polícia do Senegal informou ter interceptado 142 pessoas, entre elas mulheres e crianças pequenas, ao largo de Dacar.
Com informações de RTVC, El Hierro Hoy, Al Jazeera, AFP e Reuters.




