O preço de referência do gás na Europa rompeu a barreira dos € 100 por megawatt-hora (MWh) pela primeira vez desde dezembro de 2022. O contrato holandês TTF para o mês seguinte — o padrão do mercado europeu — era negociado a € 100,37 às 16h de quarta-feira, 28 de outubro, em alta de mais de 4% no dia.
A marca tem valor sobretudo psicológico, e analistas apostam que ela funcione como uma barreira. "É claramente um nível de resistência psicológica", disse Tom Marzec-Manser, da consultoria Wood Mackenzie, ao avaliar que o patamar pode limitar novas altas — embora a geopolítica do Oriente Médio e as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro, possam empurrar os preços para cima.
Mais do que o triplo em oito meses
A comparação que mede o choque não é com 2022, e sim com fevereiro deste ano. Antes do início da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, o TTF era negociado em torno de € 30 a € 32 por MWh. De lá para cá o preço mais do que triplicou.
O recorde histórico, de cerca de € 340 por MWh, foi registrado em agosto de 2022, no auge da crise aberta pela invasão russa da Ucrânia. O nível atual está longe dele, mas é o mais alto em quase quatro anos.
A causa imediata é a oferta. Os carregamentos de gás natural liquefeito (GNL) do Catar, um dos maiores fornecedores mundiais, praticamente deixaram de chegar à União Europeia desde o fechamento do estreito de Ormuz. A isso somam-se estoques baixos na entrada do verão europeu e a disputa com a Ásia pelas cargas de GNL disponíveis para o inverno.
Estoques em 75%, abaixo da meta
O armazenamento europeu entra no inverno em desvantagem. Segundo a Agência da União Europeia para a Cooperação dos Reguladores da Energia (ACER), os estoques dos países do bloco estavam em 75% da capacidade em 21 de outubro. A meta comunitária é de 90% até 1º de novembro — um alvo que os países foram autorizados a cumprir com mais flexibilidade.
O inverno passado terminou com os reservatórios em 28%, contra uma média de cerca de 40% nos nove anos anteriores. A ACER calcula que a guerra elevou a conta de importação de gás da Europa em algo entre € 18 bilhões e € 33 bilhões.
Há um fator que amortece a alta: o consumo europeu de gás está cerca de 20% abaixo do nível anterior a 2022, resultado da combinação de eficiência, renováveis e desindustrialização.
"Outra crise de energia"
O comissário europeu de Energia e Habitação, Dan Jørgensen, afirmou que a Europa vive "outra crise de energia" e advertiu que o inverno será difícil, com contas de combustível "nas alturas". A Comissão Europeia projeta que o mercado global de diesel siga apertado até 2027 e quer ampliar a produção das refinarias do bloco — cerca de um quarto das refinarias europeias fechou nas duas últimas décadas.
A agenda desta semana é de resposta. Os ministros de Energia da União Europeia se reúnem nesta quinta-feira, e o bloco negocia com o Canadá um acordo de longo prazo de GNL, em uma cúpula marcada para quinta e sexta-feira em Montreal. Ao mesmo tempo, o banimento total das importações de gás russo, previsto para janeiro, adiciona volatilidade ao preço.
A expectativa de analistas é de que o gás europeu siga caro por pelo menos um ano, independentemente do rumo da guerra com o Irã ou do rigor do inverno.
Com informações da Yahoo Finance, do Seoul Economic Daily e da ACER.




