Uma juíza da Delaware Court of Chancery (o tribunal societário do estado de Delaware, onde a maioria das grandes empresas americanas é registrada) mandou a Fox Corporation entregar aos próprios acionistas cerca de 700 documentos internos que contêm a expressão "phone hacking", além de dezenas de atas de reuniões do conselho e e-mails enviados da conta corporativa de um conselheiro em outra empresa.
A decisão, da vice-chancellor Bonnie David, foi noticiada pela NPR em 20 de setembro. Ela foi integralmente contrária à Fox: a empresa não convenceu o tribunal de que o material devia continuar protegido por sigilo.
O que os acionistas realmente alegam
A ação foi aberta há cerca de três anos por acionistas da Fox Corp. contra Rupert Murdoch, seu filho Lachlan e membros do conselho. A tese não é a de que um escândalo específico foi mal conduzido. É estrutural: a de que os Murdoch e os conselheiros ao redor deles construíram e mantiveram um modelo de negócio que expôs a empresa, repetidas vezes, a escândalos e a processos caros — e que quem pagou a conta foi o acionista.
Para uma ação desse tipo seguir adiante, os autores precisam vencer uma questão preliminar: a de se o conselho era independente o bastante para ter fiscalizado a família.
É por isso que um conselheiro pesa mais que os outros aqui. Jacques Nasser, ex-presidente da Ford, é o nome em que a disputa se concentrou. Se os autores conseguirem mostrar que Nasser não era independente — que estava alinhado aos Murdoch a ponto de colocar o interesse deles à frente do da empresa —, mais da metade do conselho passa a falhar no teste de independência, e o caso pode caminhar para julgamento em vez de ser arquivado.
Os documentos agora liberados são a prova que os autores querem para esse argumento. Os e-mails das contas corporativas de Nasser na Ford estão no conjunto pela mesma razão.
Os escândalos por trás da expressão "phone hacking"
O termo de busca não é acessório. Os 700 documentos foram identificados justamente por mencionarem o escândalo britânico das escutas telefônicas, que custou à News Corporation algo da ordem de US$ 1,5 bilhão.
A ação convive com uma sequência de outros episódios caros:
- o acordo de difamação com a Dominion Voting Systems, em 2023, de cerca de US$ 800 milhões;
- o processo da Smartmatic USA, em que a autora pede US$ 2,7 bilhões e que segue em curso;
- a retratação da reportagem sobre Seth Rich, encerrada por acordo de valor não revelado.
O que diz a Fox
Em audiência, a advogada da Fox, Anitha Reddy, rebateu a sugestão de que registros tivessem sido destruídos: "Dizer que documentos foram apagados em massa é incorreto", afirmou, embora tenha reconhecido que houve um período em que mensagens de texto não eram preservadas.
A Fox não quis se manifestar publicamente sobre a decisão.
Por que uma briga por documentos merece atenção. Decisões como essa raramente encerram um caso, e esta não encerrou. O que ela muda é o que os autores podem ler antes de o tribunal decidir se existe caso — e, numa empresa em que a alegação central é sobre quem fiscalizava quem, a ata do próprio conselho é o documento que importa.
Com informações da NPR, que publicou os detalhes da decisão.




