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Política

Lista dos Estudantes vence a eleição na Sérvia, e Vučić admite derrota depois de 14 anos no poder

Projeção do instituto Cesid-IPSPS dá 138 das 250 cadeiras ao movimento estudantil e 104 ao Partido Progressista Sérvio; o comparecimento foi o maior desde a dissolução da Iugoslávia, em 1992

Por Redação RecortNews
A sede da Assembleia Nacional da Sérvia, em Belgrado, fotografada em novembro de 2023. O Parlamento tem 250 cadeiras, e 126 formam maioria.
A sede da Assembleia Nacional da Sérvia, em Belgrado, fotografada em novembro de 2023. O Parlamento tem 250 cadeiras, e 126 formam maioria.Foto: kallerna/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Aleksandar Vučić admitiu na noite de domingo (25) que perdeu a eleição parlamentar antecipada da Sérvia — a votação que ele próprio convocou em setembro, depois de quase dois anos de protestos estudantis. "Ainda não temos os resultados finais, mas, com base numa amostra, está claro que perdemos estas eleições", disse ele, em pronunciamento curto ao país.

A derrota encerra o ciclo de 14 anos em que Vučić e o Partido Progressista Sérvio (SNS) organizaram a política do país. Quem o substitui no comando do Parlamento é uma lista que não existia dois anos atrás: a Lista dos Estudantes, formada por 250 nomes em sua maioria desconhecidos — professores universitários, médicos, atores, agricultores — e liderada pelo cardiologista Ilija Srdanović.

O que as urnas devolveram

O Parlamento sérvio tem 250 cadeiras, e 126 formam maioria. Concorreram 18 listas, num eleitorado de cerca de 6,5 milhões de pessoas.

Pela contagem por amostragem que Vučić citou, a Lista dos Estudantes ficaria com algo entre 135 e 140 cadeiras, e o SNS, com cerca de 105. Ele mencionou ainda três cadeiras para a Aliança dos Húngaros de Voivodina (SVM), uma para partidos albaneses e provavelmente uma para o SDA, e afirmou que nenhuma outra legenda entrou no Parlamento. Em votos, pela mesma amostra, os estudantes teriam perto de 2,2 milhões, contra cerca de 1,72 milhão do SNS.

Uma projeção do instituto Cesid-IPSPS, divulgada na mesma noite, chegou a números próximos: 138 cadeiras para a Lista dos Estudantes e 104 para o SNS, com o restante nas mãos de partidos de minorias étnicas.

O comparecimento foi o dado mais incomum da jornada. A Comissão Eleitoral Republicana registrou 64,9% às 18h locais — já o maior índice desde a dissolução da Iugoslávia, em 1992 — e, segundo a rede australiana ABC, o número final ficou perto de 70%.

A votação não correu sem atrito. A organização de monitoramento CRTA afirmou ter observado pressão sobre eleitores ou mesários em quase um terço das 500 seções que acompanhou, além de falhas na proteção do sigilo do voto. O Cesid dizia ter recebido cerca de 260 relatos de possíveis irregularidades até as 17h, entre fotografias de cédulas, voto em grupo e problemas na checagem de identidade.

De uma marquise que caiu a uma maioria parlamentar

O movimento que agora deve governar nasceu de um acidente. Em novembro de 2024, a marquise da estação ferroviária de Novi Sad desabou e matou 16 pessoas. O que começou como cobrança por responsabilidade pela obra virou, ao longo de 2025 e 2026, uma pauta mais ampla: corrupção, aparelhamento de instituições e liberdade de imprensa — acusações que Vučić e o SNS sempre negaram.

Vučić, que governou com apoio público do presidente russo Vladimir Putin, tratou os protestos como tentativa estrangeira de derrubá-lo. Segundo a Al Jazeera e a Euronews, ele deixou a Presidência em setembro para disputar o cargo de primeiro-ministro na eleição antecipada. O SNS está no poder desde 2012.

"Hoje à noite celebramos a vitória. Amanhã construímos o futuro", disse Radomir Šajčić, professor da Universidade de Belgrado que fala pelo movimento.

O que vem agora

Os resultados finais ainda não foram homologados, e não há calendário anunciado para a formação de governo. Também não está definido quem será primeiro-ministro — a lista se apresentou sem candidato único ao cargo.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, parabenizou a Lista dos Estudantes em publicação na rede X e disse que a União Europeia está pronta para apoiar reformas em Estado de direito, liberdade de imprensa e combate à corrupção, e para fazer avançar a candidatura sérvia ao bloco.

A agenda interna que os estudantes defenderam na campanha é concentrada em corrupção e educação. Na política externa, foram mais discretos — e é ali que está a parte difícil da conta: a Sérvia tem a China como grande investidora, a Rússia como aliada tradicional e principal fornecedora de gás, e a União Europeia como maior parceira comercial. Um governo sem experiência administrativa terá de decidir, logo, o que fazer com Kosovo, energia, contas públicas e a própria relação com Moscou.

Com informações da Euronews, da Al Jazeera e da ABC (Austrália).