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Política

Mais de 29 mil policiais estaduais e locais já aplicam a lei de imigração nos EUA, mais que o dobro da força própria do ICE

Levantamento da FWD.us conta mais de 1.850 corporações no modelo de força-tarefa do programa 287(g), que não tinha nenhuma no início de 2025, em jurisdições que cobrem cerca de um em cada três americanos

Por Redação RecortNews
Equipe do setor de deportações do ICE durante uma prisão em Boynton Beach, na Flórida, em janeiro de 2025.
Equipe do setor de deportações do ICE durante uma prisão em Boynton Beach, na Flórida, em janeiro de 2025.Foto: usicegov/Wikimedia Commons, domínio público

A maior força de repressão à imigração dos Estados Unidos já não é a que está na folha de pagamento federal. Mais de 29 mil policiais estaduais e locais em 30 estados estão hoje credenciados para aplicar a lei federal de imigração, segundo levantamento divulgado na quarta-feira, 28 de outubro de 2026, pela organização FWD.us — mais que o dobro dos 11,6 mil agentes de deportação que o Immigration and Customs Enforcement (ICE, o serviço de imigração e alfândega americano) emprega diretamente.

Os policiais são credenciados pela seção 287(g) do Immigration and Nationality Act (a lei de imigração e nacionalidade dos EUA), por meio de acordos escritos entre o ICE e as corporações locais. Mais de 1.850 corporações já haviam assinado o modelo de força-tarefa do programa até 1º de outubro. No começo de 2025, nenhuma havia.

O que o modelo de força-tarefa muda

As versões do 287(g) baseadas em cadeias permitem que policiais locais checem a situação migratória de pessoas já sob custódia. O modelo de força-tarefa é diferente: ele credencia o policial a fazer prisões por imigração na rua, no trabalho policial comum — o que, na prática, quer dizer em abordagens de trânsito.

A FWD.us descreve isso como um deslocamento deliberado: das operações urbanas de grande visibilidade que o governo conduziu em cidades como Chicago e Minneapolis para um mecanismo mais discreto, espalhado por milhares de viaturas.

"Isso já não são alguns xerifes em alguns condados", disse Zoë Towns, diretora-executiva da organização. As jurisdições participantes cobrem pelo menos 136 milhões de pessoas, mais ou menos um em cada três americanos.

A curva das prisões

Os números de prisões acompanharam as adesões. As prisões com participação de policiais do 287(g) saíram de pouco mais de mil em agosto de 2025 para mais de 2.400 em outubro do mesmo ano, e passaram de 6.600 em julho de 2026 — alta de mais de seis vezes em menos de um ano. Sua fatia do total de prisões do ICE subiu de menos de 3% no início de 2025 para cerca de 15%, e em vários estados o programa respondeu recentemente por mais da metade de todas as prisões por imigração.

No total, as parcerias produziram mais de 47 mil prisões entre janeiro de 2025 e agosto de 2026. Cerca de metade veio da Flórida e do Texas, onde os governadores obrigaram as polícias locais a assinar os acordos.

Os estados em que a fatia é maior não são os que aparecem nas manchetes. No Wyoming, policiais credenciados fizeram 77% das prisões por imigração em abril de 2026, e mais de 60% em todos os meses desde novembro de 2025. New Hampshire chegou a 60% em junho de 2026. Em Oklahoma, onde a polícia rodoviária inscreveu todos os seus agentes, quase metade das prisões por imigração de junho foi feita por policiais estaduais ou locais.

"Mesmo que Oklahoma não apareça nas manchetes, é claramente um ponto quente da repressão à imigração", disse Gabriela Ramirez-Perez, do Oklahoma Policy Institute, que afirmou à NPR que moradores mudaram a rotina para evitar as rodovias e dirigir menos.

O dinheiro veio primeiro

A FWD.us argumenta que a sequência vai do financiamento para a repressão, e não o contrário. As corporações participantes podem receber pelo menos US$ 2 bilhões em repasses federais projetados até o fim do ano fiscal de 2026 — mais ou menos o dobro dos maiores programas federais de repasse para polícias locais no ano fiscal de 2024 — e as que já participam poderiam arrecadar pelo menos US$ 1,8 bilhão por ano daqui para frente. O Department of Justice (o Departamento de Justiça americano) ofereceu US$ 3 bilhões às corporações que aderirem, e a Flórida somou centenas de milhões de dólares próprios para seus departamentos participantes.

"O dinheiro veio primeiro, e as prisões vieram depois", disse Felicity Rose, vice-presidente de pesquisa e políticas da organização. Ela chamou os policiais credenciados de "uma alavanca central na abordagem mais silenciosa do governo".

O Department of Homeland Security (o Departamento de Segurança Interna) defende o programa como ferramenta essencial para reduzir o crime e a imigração ilegal.

O relatório sai seis dias antes das eleições de meio de mandato, em 3 de novembro, num ciclo em que a repressão à imigração virou tema disputado, e não uma vantagem assentada do governo.

Com informações da FWD.us e da NPR.