A Nigéria confirmou nesta quarta-feira (21) que o primeiro caso de ebola detectado no país em 12 anos é da cepa Bundibugyo — a mesma que circula no surto da República Democrática do Congo (RDC). É a primeira vez que esse surto, declarado em maio, alcança a África Ocidental.
A paciente é uma mulher que chegou de Uganda à capital nigeriana, Abuja, em 3 de outubro. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros sintomas apareceram quatro dias depois, em 7 de outubro, e ela procurou atendimento em uma unidade de saúde privada de Abuja no dia 11. O teste só foi feito no dia 19, quando as autoridades souberam da viagem recente a Uganda, e o resultado positivo saiu no dia 20.
"Fizemos três níveis de testes, todos moleculares. A cepa era a Bundibugyo", disse Olajumoke Babatunde, diretora do serviço de laboratórios de saúde pública do centro nigeriano de controle e prevenção de doenças (NCDC), em declaração reproduzida pela Al Jazeera.
O ministro da Saúde, Muhammad Ali Pate, afirmou à emissora estatal NTA que a paciente está isolada e recebendo tratamento. O NCDC ativou seu sistema de gestão de incidentes, e a OMS disse estar apoiando a investigação do caso, o rastreamento de contatos e o reforço das medidas de controle de infecção na unidade onde ela foi atendida, incluindo o envio de equipamentos de proteção individual.
Doze dias entre o sintoma e o teste
O intervalo entre o início dos sintomas e a coleta do exame é o ponto que mais preocupa especialistas. O médico nigeriano Ayoade Alakija, que copreside um comitê de investimento em saúde global ligado ao G7, calculou 12 dias entre o adoecimento e o teste — tempo em que outras pessoas podem ter sido expostas.
As autoridades nigerianas identificaram 44 contatos, a maioria profissionais de saúde, entre eles o marido da paciente, um cidadão suíço que mora com ela em Abuja. Os passageiros do voo que veio de Uganda também estão sendo localizados, embora os investigadores não acreditem que ela apresentasse sintomas durante o trajeto.
A OMS recomenda que os países da região mantenham vigilância epidemiológica reforçada e laboratórios capazes de testar casos suspeitos com segurança. Até agora, a organização não recomendou nenhuma restrição de viagem ou de comércio.
Uma cepa sem vacina aprovada
O ebola Bundibugyo não tem vacina nem tratamento específico aprovados — ao contrário da cepa Zaire, para a qual existem imunizantes e anticorpos monoclonais licenciados. É essa diferença que torna o surto atual mais difícil de conter do que os anteriores: a resposta se apoia em isolamento, rastreamento de contatos e cuidado de suporte.
Na última vez que o ebola chegou à Nigéria, em 2014, o caso foi detectado em Lagos e contido em cerca de três meses, com 20 infecções e oito mortes. A epidemia que atingiu a África Ocidental entre 2013 e 2016 matou mais de 11 mil pessoas.
Quinto país alcançado pelo surto
Segundo a OMS, a Nigéria é o quinto país a detectar o vírus nesta onda. O epicentro continua na RDC, onde o surto foi declarado em meados de maio: até 18 de outubro, as autoridades congolesas haviam notificado mais de 9.500 casos e mais de 4.200 mortes, o episódio mais letal da história do país. O surto de Uganda foi declarado encerrado no fim de agosto. O Quênia soma nove casos desde 6 de outubro, e a Holanda registrou um caso, todos ligados à RDC.
O diretor-geral do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), Jean Kaseya, escreveu na rede social X que o surto deixou de ser a luta de um país só e convocou uma reunião extraordinária de ministros da Saúde do continente para a próxima semana, com o objetivo de reforçar a resposta transfronteiriça e revisar a capacidade hospitalar.
Com informações da Organização Mundial da Saúde, da ONU News, da Al Jazeera e da Africa CDC.




