A Novaya Gazeta, o jornal independente mais conhecido da Rússia, anunciou nesta sexta-feira (30) que encerra as atividades depois de 33 anos. Segundo o comunicado do conselho editorial, a redação vai desligar os servidores e "apagar as luzes da casa onde vivemos por 30 anos" em 9 de novembro. Uma última edição ainda está prevista.
"Fomos mortos", diz o texto, que atribui o fechamento às autoridades e aos serviços de segurança russos. "O jornal não existe mais."
Dmitry Muratov, um dos cinco fundadores do jornal e seu editor-chefe por mais de duas décadas, resumiu a decisão em uma frase citada pela Novaya Gazeta Europe: "Não morremos, nos mataram — junto com a Constituição." Ele ironizou o artigo 29 da Carta russa, que proíbe a censura.
O que levou ao fechamento
A redação descreve a pressão dos últimos meses como uma "campanha coordenada". Segundo a Novaya Gazeta Europe, a decisão de fechar foi tomada diante do risco de o jornal ser declarado "organização extremista" — enquadramento que, na prática, expõe jornalistas a prisão.
Dois episódios recentes estreitaram o cerco. A direção foi informada em 19 de outubro de que o jornal seria despejado do prédio da travessa Potapovsky, em Moscou, de acordo com a revista britânica The Economist, citada pela Novaya Gazeta Europe. E, em 26 de outubro, Muratov e o atual editor-chefe reuniram a equipe no porão de um edifício vizinho, por receio de que a própria redação estivesse com escuta.
A Al Jazeera informa ainda que a casa de um editor sênior do jornal foi alvo de busca neste mês, em desdobramento de um processo criminal contra o jornalista Oleg Roldugin, preso em abril e acusado de "acesso ilegal a informação computadorizada".
Licença revogada em 2022
O cerco é anterior. Moscou revogou a licença de mídia da Novaya Gazeta em 2022, pouco depois do início da invasão em grande escala da Ucrânia, e o jornal passou a figurar na lista de "agentes estrangeiros", instrumento usado pelo governo russo contra veículos e organizações críticas.
Naquele março de 2022, boa parte da equipe deixou a Rússia e fundou na Letônia a Novaya Gazeta Europe, que segue publicando em russo e em inglês — e que não é atingida pelo anúncio desta sexta-feira. O que se encerra em 9 de novembro é a operação que resistia dentro do país.
De 1993 ao Nobel da Paz
A Novaya Gazeta foi fundada em 1993 por Sergei Kushnerev, Pavel Voshchanov, Akram Murtazaev, Dmitry Sabov e Muratov. Os primeiros computadores da redação foram comprados com ajuda do ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev.
Em 2021, Muratov dividiu o Prêmio Nobel da Paz com a jornalista filipina Maria Ressa, por esforços em defesa da liberdade de expressão. Pelas contas da Repórteres sem Fronteiras, seis jornalistas e funcionários do jornal foram assassinados ao longo de sua história — entre eles Anna Politkovskaya, morta em Moscou há 20 anos, cuja memória Muratov iria homenagear em Paris nesta semana.
O número é a melhor medida do que o jornal representava: um veículo que cobria Chechênia, corrupção e abusos das forças de segurança em um país onde essa cobertura custava vidas. O fechamento não decorre de uma decisão judicial única, e sim do acúmulo de perdas — licença, sede, segurança jurídica — até o ponto em que continuar significaria expor a equipe a prisão.
Com informações da Novaya Gazeta Europe, da Al Jazeera e da Euronews.




