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Opinião

O IBGE levou a mentira à Polícia Federal

Quando a desinformação ataca uma pesquisa amostral, o dano não é reputacional: é estatístico. E o instituto que conta tudo ficou sem instrumento próprio.

Por Danrley Pereira

O IBGE é a instituição menos dramática do Brasil. Ele conta pessoas, conta casas, conta galinhas, e publica tudo em tabelas que ninguém lê inteiras. Quando uma instituição dessas resolve acionar a Polícia Federal e a Advocacia-Geral da União, como fez no dia 14 de setembro, segundo a Agência Brasil, por causa de mentiras sobre a Pesquisa Nacional de Saúde, vale a pena parar e perguntar o que aconteceu com a paciência de quem conta galinhas.

A fake news chegou ao questionário

A desinformação costuma atacar pessoas, partidos, vacinas. Atacar uma pesquisa amostral é uma inovação. Não é uma opinião errada sobre um resultado; é uma tentativa de impedir que o resultado exista. Se as pessoas passam a acreditar que o recenseador é um golpista, ou que responder à pesquisa traz algum risco, elas fecham a porta. E uma porta fechada não vira erro de amostragem: vira buraco no dado.

É aqui que a coisa deixa de ser reputacional e passa a ser estatística. Um instituto pode sobreviver a difamação. O que ele não pode é produzir uma pesquisa nacional de saúde sem os brasileiros que se recusaram a responder por medo de uma corrente de mensagem.

Infraestrutura invisível

A gente tende a pensar em infraestrutura como coisa de concreto: ponte, estrada, cabo. Mas o país também funciona sobre uma infraestrutura de informação, e o IBGE é um pedaço grande dela. Política de saúde, distribuição de verba, meta de vacinação, tudo isso se apoia em números que vieram de alguém batendo na porta de alguém e fazendo perguntas.

Atacar essa infraestrutura tem uma vantagem, do ponto de vista de quem ataca: o dano não aparece. Uma ponte que cai sai no jornal. Uma pesquisa com taxa de resposta corroída sai daqui a dois anos, numa nota metodológica que quase ninguém vai ler, e a partir dali toda decisão baseada nela nasce um pouco torta, sem que ninguém consiga dizer exatamente quanto.

O instrumento errado, e o único

Há algo de estranho em um instituto de estatística usando o direito penal para defender a coleta de dados. Não é para isso que a PF existe, e não é assim que se conquista a confiança de quem abre a porta. Mas a alternativa era o quê? Publicar uma tabela mostrando que a mentira é mentira? Fizeram isso; a mentira seguiu circulando, porque mentira não lê tabela.

Então o IBGE fez o que instituições fazem quando ficam sem instrumentos próprios: pediu emprestado o do Estado. É uma escalada que ninguém queria e que diz menos sobre o instituto do que sobre o ambiente em que ele tenta trabalhar.

Quem espalhou a mentira provavelmente não pensou em nenhuma dessas consequências. Pensou em engajamento. E é essa a parte mais irônica: a desinformação sobre a Pesquisa Nacional de Saúde será, um dia, um dado. Estará na taxa de recusa, na margem de erro maior, na nota de rodapé. O IBGE conta tudo, inclusive o estrago.

A matéria factual em que esta coluna se apoia: leia no RecortNews.