Uma CPI é um instrumento de precisão. Ela enxerga exatamente até onde decidiu enxergar, e nem um centímetro além. No dia 18 de março, a CPI do Crime deu uma demonstração de calibragem que merece ser estudada em curso de instrumentação.
Na mesma sessão, segundo a Agência Brasil, os deputados aprovaram o requerimento para rastrear os beneficiários finais do Banco Master e rejeitaram a quebra de sigilo de Paulo Guedes. Duas decisões, uma ata, nenhuma contradição aparente. Afinal, o que é um beneficiário final senão alguém que está no fim de uma cadeia societária, bem longe, atrás de várias camadas, num lugar onde a luz da CPI chega com atraso de anos?
O andar de cima existe, mas ninguém sobe
Rastrear beneficiário final é trabalho técnico. Envolve ofício ao Banco Central, resposta em prazo regimental, planilha, offshore com nome de flor, outra offshore com nome de pedra, e um perito explicando que a empresa da Ilha X é controlada pela fundação do País Y. É lento, é sério e, com sorte, entrega um nome que ninguém conhece.
Quebrar o sigilo de alguém que todo mundo conhece é trabalho político. Leva um voto. E foi exatamente esse voto que a comissão decidiu não dar.
Note a elegância do arranjo. A CPI não disse que não quer saber. Pelo contrário: ela quer saber tudo sobre a ponta invisível da cadeia. O que ela prefere não saber é a parte visível, aquela que já tem cargo, biografia e verbete. É como contratar um detetive para achar quem está escondido no porão e pedir que ele não olhe para quem está sentado na sala.
A técnica do foco longo
Existe um jeito de parecer rigoroso sem correr nenhum risco, e ele consiste em apontar a lupa para o horizonte. Quanto mais distante o alvo, mais tempo se ganha, mais relatórios se produzem, e mais tarde alguém pergunta o que foi encontrado. Beneficiário final é o horizonte perfeito: sempre há mais uma camada.
Já o sigilo de um ex-ministro é um alvo próximo demais. Perto demais para caber na lupa, e perto demais para não respingar.
Não estou afirmando que a quebra de sigilo revelaria alguma coisa. Talvez não revelasse nada. Esse é justamente o ponto: a comissão preferiu não descobrir se revelaria. Prudência, dirão alguns. Método, dirão outros. Eu chamaria de instinto de sobrevivência com aparência de procedimento.
O que a ata conta
Quem ler o resultado daquela tarde vai encontrar uma CPI produtiva, com requerimento aprovado, rastreio em curso e disposição investigativa registrada. Vai encontrar também um requerimento rejeitado, que em ata parece apenas mais um item, como se fosse uma emenda de redação.
Mas as duas linhas contam a mesma história por ângulos opostos. Uma diz aonde a comissão está disposta a ir. A outra diz onde ela para. E, entre o "ir" e o "parar", fica o mapa real do que se pode esperar do relatório final: muitos nomes que ninguém conhece, cuidadosamente documentados, e um silêncio bem-educado sobre os que todo mundo conhece.
Sigo acompanhando o rastreio dos beneficiários finais. Tenho certeza de que, em algum momento, ele chegará a alguém. Só não aposto que será alguém que já esteve num ministério.
A matéria factual em que esta coluna se apoia: leia no RecortNews.