Toda segunda-feira de manhã o Banco Central publica o Boletim Focus, e toda segunda-feira de manhã o mercado revisa o que pensa sobre o futuro. É um ritual bonito. Tem número, tem gráfico, tem gente séria dizendo que a expectativa "subiu marginalmente". Durante quinze semanas seguidas, segundo os boletins publicados pela Agência Brasil, a expectativa de inflação subiu, marginalmente e em fila, até estourar o teto da meta.
Depois recuou. Também marginalmente. E anunciou-se, com o alívio de quem viu o paciente sair da UTI, que a Selic projetada era de 13,75% e que o corte viria em março.
Quem não lê Focus
Existe um grupo de pessoas que não lê o Focus, e ele é a maior parte do país. Esse grupo tem outras leituras semanais, igualmente rigorosas: o boleto, o preço do gás, a prestação do carro, o contrato de aluguel com reajuste anual. Nenhum desses documentos revisa expectativa toda segunda-feira. Eles são bem menos flexíveis que o mercado.
Aí está a assimetria que o boletim não mede. O analista pode mudar de ideia 52 vezes por ano, sem custo. Já o contrato de aluguel muda de ideia uma vez por ano, e a prestação, nenhuma. Quando a expectativa sobe por quinze semanas, o analista revisa uma planilha. Quem paga o juro revisa a vida.
A inflação de expectativa
Há algo curioso num indicador que mede o que as pessoas acham que vai acontecer. Ele influencia o que vai acontecer. Se todo mundo espera inflação, o preço sobe por precaução; se o preço sobe, a expectativa se confirma; se a expectativa se confirma, o Copom aperta a Selic; e a Selic apertada chega ao cheque especial e ao crediário, onde ninguém foi consultado sobre a expectativa de nada.
Quinze semanas de alta é o tempo de uma gestação de cachorro. Nesse intervalo, o boletim produziu quinze manchetes, quinze notas de corretora e uma quantidade incalculável de gráficos com seta para cima. Produziu também, na ponta, uma quantidade calculável de parcelas mais caras, só que essa conta não sai na segunda-feira.
O recuo que não desce
Depois vem o recuo, e o recuo é sempre notícia boa. A expectativa cai, o corte é anunciado para março, o tom muda. Só que o juro que subiu ao longo de quinze semanas de expectativa alta já foi cobrado. Ele não é devolvido quando a expectativa recua. Subir é rápido, contagioso e coletivo; descer é lento, condicionado e "dependente dos dados".
O Focus é um bom instrumento. Ele mede o que o mercado pensa com uma precisão admirável. O problema é que ele nunca foi pensado para medir a distância entre o que o mercado pensa numa segunda-feira e o que a pessoa paga na sexta. Essa distância não tem boletim. Tem só boleto.
A matéria factual em que esta coluna se apoia: leia no RecortNews.