O Banco Central del Paraguay (BCP, o banco central paraguaio) abriu em 3 de novembro de 2026 o processo de resolução do ueno bank, um dos principais bancos digitais do país, com cerca de três milhões de clientes. A decisão suspendeu as operações da instituição — aplicativo, cartões e serviços bancários pararam de funcionar — e abriu uma semana de medidas de emergência no Congresso e de uma renúncia no comando do próprio Banco Central.
O índice de solvência, abaixo da metade do mínimo
O BCP fundamentou a resolução no fato de o índice de solvência do ueno bank ter caído abaixo de 50% do mínimo exigido, em parte por ajustes aplicados às demonstrações financeiras da instituição durante um processo de regularização.
Não foi o primeiro passo. O procedimento administrativo contra o banco foi aberto em 24 de setembro de 2026, depois de um pedido do Senado em 9 de setembro. No processo consta ainda um memorando de 10 de julho de 2026 assinado por Fernando Rivarola, então gerente de Supervisão do BCP.
O que o Senado aprovou
A Câmara dos Senadores aprovou na terça-feira, 3 de novembro, um projeto que autoriza o Fondo de Garantía de Depósitos (FGD, o fundo garantidor de depósitos) a pagar até 40 salários mínimos mensais por depositante — cerca de G. 121 milhões — dentro das 24 horas seguintes à resolução de uma instituição financeira. A Lei nº 2.334/03, vigente até agora, fixava um prazo de até 15 dias corridos, prorrogáveis por outros 15.
O texto altera em caráter excepcional esses limites, autoriza o BCP a injetar liquidez no FGD por meio de títulos, conforme as condições fixadas por sua diretoria, e obriga os bancos a manter um registro por depositante e entregá-lo à Superintendência de Bancos em 24 horas quando solicitado, sob pena de infração grave.
Na mesma sessão, o Senado rejeitou uma proposta para estender a garantia à totalidade dos recursos públicos depositados no ueno bank.
O projeto seguiu para a Câmara dos Deputados, que convocou sessão extraordinária para quarta-feira às 10h, no horário local, com esse único item. O presidente da Câmara, Raúl Latorre, anunciou que a proposta receberia "tratamento prioritário e urgente".
Como será o pagamento, segundo o BCP
A presidente interina do BCP, Liana Caballero, informou que o primeiro desembolso será de até G. 10.000.000 por depositante, com recursos do FGD, e que os depositantes serão divididos em três faixas. Datas, locais e exigências ainda não estavam definidos.
"A parte operacional é o problema para pagar", resumiu Caballero.
A antecipação é um pagamento por conta da cobertura total do FGD, que chega a 75 salários mínimos — em torno de G. 228.300.000, cerca de US$ 38 mil. Segundo estimativas preliminares, aproximadamente 97% dos depositantes ficam integralmente cobertos por esse teto. Quem tiver empréstimos vencidos com o ueno bank terá descontadas apenas as parcelas vencidas, não a dívida pendente inteira. Os saldos acima do limite dependem do resultado da resolução e da liquidação de ativos.
A renúncia de Carvallo
O presidente do BCP, Carlos Carvallo, apresentou sua renúncia à Câmara dos Senadores na terça-feira, 3 de novembro, em carta datada do mesmo dia. Horas antes havia dito que já a tinha assinado, e anunciou que seguiria provisoriamente no cargo para acompanhar o processo.
"Minha renúncia está assinada de antemão pela simples razão de que o BCP precisa de tranquilidade para fazer seu trabalho", afirmou.
Os recursos públicos e o IPS
O Instituto de Previsión Social (IPS, a previdência social paraguaia) mantém investimentos e depósitos no ueno bank, além de contas de milhares de aposentados. Outras instituições estatais e empresas públicas também tinham recursos comprometidos na instituição, sem valores informados até o fechamento desta edição.
A Asociación de Bancos del Paraguay (Asoban, a associação dos bancos paraguaios) apoiou o pagamento antecipado por meio do FGD, mas pediu prudência quanto ao uso do Fundo para devolver recursos previdenciários do IPS e de outras caixas, e considerou prematuro esse debate.
O presidente Santiago Peña procurou limitar o alcance do episódio. "Este é um caso particular de uma instituição, não do sistema financeiro nacional", escreveu na rede social X. No Senado, a oposição anunciou que ampliaria suas denúncias contra o mandatário e atribuiu ao governo a decisão de canalizar recursos estatais para o banco, segundo a senadora Esperanza Martínez.
O dado que organiza o resto: com 97% dos depositantes abaixo do teto da garantia, o problema que sobra não é o tamanho da cobertura, mas o calendário do pagamento — e é exatamente o ponto que o Congresso tentou mover de 15 dias para 24 horas.
Com informações de ABC Color, La Nación (Paraguai), Infobae e Ámbito.




