A procura por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) motivada por dependência de apostas online e jogos de azar cresceu 140% nos últimos cinco anos. O número é do Ministério da Saúde e ajuda a medir, do lado do serviço público, o que a expansão das bets deixou pelo caminho.
A conta financeira desse dano vem de fora do governo. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), divulgado no fim de 2025, estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano o custo que os danos à saúde associados às apostas impõem à sociedade brasileira. Entre os componentes levantados pelo instituto estão cerca de R$ 17 bilhões atribuídos a mortes adicionais por suicídio e R$ 10,4 bilhões à perda de qualidade de vida associada à depressão.
A porta de entrada eletrônica
Em fevereiro de 2026, o Ministério da Saúde abriu um canal digital específico para quem procura ajuda por causa de apostas. O acesso começa por um teste de avaliação.
"Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste", disse Marcelo Kimati, diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, à Agência Brasil.
A capacidade do teleatendimento foi ampliada de 600 para até 100 mil consultas mensais. O salto diz mais sobre a demanda que o ministério espera enfrentar do que sobre a que já chegou.
Cinco milhões de CPFs bloqueados
A ferramenta mais usada, porém, não é de saúde: é de finanças. Na plataforma de autoexclusão mantida pelo Ministério da Fazenda, que permite ao apostador se bloquear nas casas legalizadas, mais de 5 milhões de CPFs já estão bloqueados. Mais de 1 milhão de usuários pediram a autoexclusão por conta própria, e quase metade deles relatou problemas de saúde mental ao fazer o pedido.
Para Gustavo Pereira, vendedor de 24 anos que perdeu cerca de R$ 500 mil em seis anos de apostas, o bloqueio foi o ponto de virada. "Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida", afirmou.
Carla Xavier, de 41 anos, descreveu à Agência Brasil a fase em que o jogo passou a organizar a rotina: "Eu não tinha mais controle de nada, eu queria sair do meu trabalho para jogar, eu queria ficar em casa para jogar."
O desequilíbrio entre arrecadação e conta
Um número explica boa parte da tensão em torno do tema: da arrecadação obtida com as operadoras de apostas, 1% é destinado ao Ministério da Saúde.
Posta ao lado da estimativa do IEPS, a proporção mostra por que a discussão sobre a destinação das receitas do setor voltou ao debate público. São grandezas diferentes — uma é repasse efetivo, a outra é estimativa de custo social —, mas é justamente essa distância que sustenta a cobrança de quem atende os casos na ponta.
Onde procurar ajuda
O atendimento para dependência de jogos e apostas é feito pelo SUS, com entrada pela atenção básica, pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e pelo canal eletrônico criado em fevereiro. Grupos de apoio como o Jogadores Anônimos também acolhem quem procura tratamento.
Se você está passando por um momento difícil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Com informações da Agência Brasil, do Poder360 e do JOTA.




