Pular para o conteúdo
RecortNews
Economia

Relatório aponta alta de 725% nas emissões indiretas da Nvidia e acusa a empresa de maquiagem verde

Estudo de oito organizações ambientais estima que os chips vendidos desde 2022 emitiram entre 4 e 21 milhões de toneladas de CO₂ equivalente só em 2025; a empresa responde que a inteligência artificial tende a reduzir emissões

Por Redação RecortNews

As emissões indiretas da Nvidia — aquelas que não saem das suas próprias instalações, mas da cadeia que produz e alimenta seus chips — cresceram 725% entre 2020 e 2026, segundo um relatório divulgado por uma coalizão de oito organizações ambientais. Em números absolutos, saltaram de 1,3 milhão para 10,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.

O documento, intitulado NVIDIA's Climate Hoax, foi publicado em 17 de setembro e tem como autor principal o analista Ketan Joshi. Assinam o trabalho Greenpeace International, Beyond Fossil Fuels, Friends of the Earth, Green Screen Coalition, Stand.earth, Kairos Fellowship, Green Web Foundation e Climate Action Against Disinformation.

O número que não é publicado

O ponto central do relatório não é o que a Nvidia divulga, e sim o que ela não divulga: a energia consumida pelos chips depois de vendidos, quando já estão rodando em centros de dados de terceiros.

Os pesquisadores estimam que os chips vendidos desde 2022 tenham gerado, apenas em 2025, entre 4 e 21 milhões de toneladas de CO₂ equivalente — uma faixa larga porque o resultado depende inteiramente da matriz elétrica de cada país onde as máquinas estão instaladas. No limite superior, o volume se aproxima do de uma grande produtora estatal russa de carvão, a Russian Coal, comparação que deu o tom da repercussão do estudo.

Vale registrar o que a amplitude dessa faixa significa: a diferença entre 4 e 21 milhões de toneladas não é incerteza sobre quanta energia os chips consomem, mas sobre de onde ela vem. O mesmo equipamento pesa cinco vezes mais no clima se ligado a uma rede movida a carvão.

A metodologia combinou os dados de escopo 3 que a própria empresa publicou em sete anos de relatórios de sustentabilidade (2020 a 2026) com uma estimativa do consumo elétrico dos chips em operação.

As três afirmações contestadas

O relatório se organiza em torno de três teses que a Nvidia sustenta publicamente e que os autores consideram insustentáveis:

  1. que o desenvolvimento da inteligência artificial traz um benefício climático líquido;
  2. que a demanda dos centros de dados puxa a expansão das energias renováveis;
  3. que ganhos de eficiência energética equivalem a progresso ambiental.

Sobre o terceiro ponto, os autores argumentam que a eficiência por operação não compensa o crescimento do consumo total, já que o número de máquinas cresce mais rápido do que a economia de energia por unidade.

O texto também questiona a ênfase da empresa na chamada demand response — a redução temporária do consumo elétrico nos horários de pico. Pelos cálculos dos pesquisadores, diante do ritmo de expansão dos centros de dados, essa prática cobriria menos de 1% do ano.

Entre os exemplos citados está o anúncio de fornecimento exclusivo de chips a um centro de dados em Ohio, nos Estados Unidos, que seria abastecido pela que viria a ser a maior usina a gás natural do mundo — com emissões superiores às de toda a rede elétrica da Nigéria.

O que diz a empresa

"As alegações da Nvidia de que a IA tem um 'benefício climático líquido' são uma tática de maquiagem verde usada pelo setor para mascarar uma poluição crescente", afirmou Joshi.

A Nvidia sustenta posição oposta. Em resposta reproduzida pela Euronews, a empresa afirma que a adoção da inteligência artificial "provavelmente levará a reduções líquidas de emissões" e cita entidades como a Agência Internacional de Energia (AIE) como respaldo.

A coalizão pede que a empresa passe a divulgar as emissões decorrentes do uso dos chips e apresente evidência mais consistente dos benefícios climáticos que atribui à IA.

Com informações da Green Web Foundation e da Euronews.