O Ministério da Saúde anunciou que pretende oferecer no SUS as chamadas canetas emagrecedoras — medicamentos à base de semaglutida — para pacientes com obesidade. O anúncio foi feito na quinta-feira (17) pelo ministro Alexandre Padilha, em Montes Claros (MG), durante visita do presidente Lula a uma nova fábrica da Eurofarma.
O que existe hoje, porém, ainda não é uma incorporação: é um estudo em andamento e a promessa de um protocolo clínico.
O que já está acontecendo
A pasta apresentou os primeiros resultados do trabalho de avaliação. A parte concreta é a pesquisa Real-Bari, escrita por técnicos do ministério e do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre: 250 pacientes do SUS com obesidade grave ou associada a outras doenças passaram a usar semaglutida desde junho, com acompanhamento médico.
O estudo tem três perguntas declaradas:
- se o remédio evita a cirurgia bariátrica em quem está na fila;
- se melhora o quadro de quem tem obesidade e problemas cardíacos;
- se reduz o risco de retorno do câncer de mama em mulheres que já trataram a doença.
"Estamos avaliando pessoas que estavam na fila de cirurgia bariátrica para saber se o uso dessa medicação consegue controlar a obesidade sem a necessidade de cirurgia", disse Padilha. Segundo ele, o primeiro paciente atendido pelo SUS com a medicação perdeu seis quilos.
O que ainda não existe
Não há data de início, critério de quem terá direito, orçamento nem compra anunciada. O ministério diz que a oferta virá "com base em estudos e na definição de um protocolo clínico".
Há também uma decisão em sentido contrário ainda em vigor: em setembro de 2025, a Portaria SECTICS/MS nº 65 tornou pública a decisão de não incorporar a semaglutida ao SUS para obesidade grau II e III em pacientes sem diabetes, a partir de 45 anos e com doença cardiovascular — pedido apresentado pela Novo Nordisk. Na análise da Conitec, o custo em cinco anos foi reestimado em R$ 6,5 bilhões a R$ 7 bilhões, contra os R$ 3,4 bilhões a R$ 3,9 bilhões calculados pela empresa. Nada do que foi anunciado agora revoga essa portaria.
O protocolo do SUS para sobrepeso e obesidade em adultos, de 2020, não prevê tratamento medicamentoso: trabalha com medidas não farmacológicas e com a cirurgia bariátrica.
Preço e patente
Padilha ligou o anúncio à queda de preços: "Já temos 14 produtos registrados. E isso derrubou o preço para a população. O que estava custando R$ 1,7 mil, R$ 2 mil, já está entre R$ 300 e R$ 400 na farmácia."
O movimento tem uma explicação de calendário: a patente do Ozempic expirou em março de 2026, e a Anvisa aprovou desde então genéricos e similares de semaglutida — o primeiro genérico e o similar Semaclique em agosto, e o Yluméc no fim do mês.
O tamanho do problema
Pelos dados do Vigitel usados pela própria Conitec, 24,3% dos adultos brasileiros têm obesidade e 55,4% estão acima do peso. A projeção para 2030 é de 29,6% com obesidade.
Ano eleitoral
O anúncio foi feito a menos de um mês do primeiro turno. A CNN Brasil classificou a fala como "anúncio de campanha", e O Tempo a colocou dentro de um "pacote de bondades" pré-eleitoral, ao lado do reajuste do Bolsa Família. O próprio Lula pediu cautela na prescrição: "Tem que fazer acordo com os médicos, porque não pode ficar receitando a torto e a direita."
Com informações do Ministério da Saúde, da Conitec, da Agência Brasil, da CNN Brasil e de O Tempo.




