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Saúde promete canetas emagrecedoras no SUS, mas o que existe hoje é um estudo com 250 pacientes

Padilha diz que a oferta virá após protocolo clínico; uma portaria de 2025 que negou a incorporação da semaglutida continua em vigor

Por Redação RecortNews
Canetas injetáveis usadas no tratamento da obesidade, fotografadas em Brasília, em 27 de agosto de 2026
Canetas injetáveis usadas no tratamento da obesidade, fotografadas em Brasília, em 27 de agosto de 2026Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Ministério da Saúde anunciou que pretende oferecer no SUS as chamadas canetas emagrecedoras — medicamentos à base de semaglutida — para pacientes com obesidade. O anúncio foi feito na quinta-feira (17) pelo ministro Alexandre Padilha, em Montes Claros (MG), durante visita do presidente Lula a uma nova fábrica da Eurofarma.

O que existe hoje, porém, ainda não é uma incorporação: é um estudo em andamento e a promessa de um protocolo clínico.

O que já está acontecendo

A pasta apresentou os primeiros resultados do trabalho de avaliação. A parte concreta é a pesquisa Real-Bari, escrita por técnicos do ministério e do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre: 250 pacientes do SUS com obesidade grave ou associada a outras doenças passaram a usar semaglutida desde junho, com acompanhamento médico.

O estudo tem três perguntas declaradas:

  • se o remédio evita a cirurgia bariátrica em quem está na fila;
  • se melhora o quadro de quem tem obesidade e problemas cardíacos;
  • se reduz o risco de retorno do câncer de mama em mulheres que já trataram a doença.

"Estamos avaliando pessoas que estavam na fila de cirurgia bariátrica para saber se o uso dessa medicação consegue controlar a obesidade sem a necessidade de cirurgia", disse Padilha. Segundo ele, o primeiro paciente atendido pelo SUS com a medicação perdeu seis quilos.

O que ainda não existe

Não há data de início, critério de quem terá direito, orçamento nem compra anunciada. O ministério diz que a oferta virá "com base em estudos e na definição de um protocolo clínico".

Há também uma decisão em sentido contrário ainda em vigor: em setembro de 2025, a Portaria SECTICS/MS nº 65 tornou pública a decisão de não incorporar a semaglutida ao SUS para obesidade grau II e III em pacientes sem diabetes, a partir de 45 anos e com doença cardiovascular — pedido apresentado pela Novo Nordisk. Na análise da Conitec, o custo em cinco anos foi reestimado em R$ 6,5 bilhões a R$ 7 bilhões, contra os R$ 3,4 bilhões a R$ 3,9 bilhões calculados pela empresa. Nada do que foi anunciado agora revoga essa portaria.

O protocolo do SUS para sobrepeso e obesidade em adultos, de 2020, não prevê tratamento medicamentoso: trabalha com medidas não farmacológicas e com a cirurgia bariátrica.

Preço e patente

Padilha ligou o anúncio à queda de preços: "Já temos 14 produtos registrados. E isso derrubou o preço para a população. O que estava custando R$ 1,7 mil, R$ 2 mil, já está entre R$ 300 e R$ 400 na farmácia."

O movimento tem uma explicação de calendário: a patente do Ozempic expirou em março de 2026, e a Anvisa aprovou desde então genéricos e similares de semaglutida — o primeiro genérico e o similar Semaclique em agosto, e o Yluméc no fim do mês.

O tamanho do problema

Pelos dados do Vigitel usados pela própria Conitec, 24,3% dos adultos brasileiros têm obesidade e 55,4% estão acima do peso. A projeção para 2030 é de 29,6% com obesidade.

Ano eleitoral

O anúncio foi feito a menos de um mês do primeiro turno. A CNN Brasil classificou a fala como "anúncio de campanha", e O Tempo a colocou dentro de um "pacote de bondades" pré-eleitoral, ao lado do reajuste do Bolsa Família. O próprio Lula pediu cautela na prescrição: "Tem que fazer acordo com os médicos, porque não pode ficar receitando a torto e a direita."


Com informações do Ministério da Saúde, da Conitec, da Agência Brasil, da CNN Brasil e de O Tempo.