O presidente Donald Trump anunciou no Salão Oval na sexta-feira, 18 de setembro de 2026, que todos os 50 programas estaduais do Medicaid (o sistema público americano de saúde para pessoas de baixa renda) — mais Washington, D.C. e Porto Rico — aderiram a um modelo federal de pagamento que atrela o que o programa paga por certos remédios de marca ao menor preço cobrado em outros países ricos.
O modelo, que o governo chama de GENEROUS, aplica o critério de "nação mais favorecida" definido por Trump em ordem executiva assinada em 12 de maio de 2025. O primeiro acordo com um fabricante, a Pfizer, foi anunciado em 30 de setembro de 2025. O anúncio de sexta-feira é sobre alcance: os últimos estados assinaram, e o governo afirma que o arranjo cobre centenas de medicamentos em classes que incluem oncologia, diabetes e asma.
O que o governo afirma
Segundo o documento de esclarecimento divulgado pela Casa Branca junto com o anúncio, 26 fabricantes assinaram acordos de nação mais favorecida, cobrindo cerca de 89% do mercado americano de medicamentos de marca. A lista inclui Pfizer, Eli Lilly, Novo Nordisk, Merck, Johnson & Johnson, AbbVie, Sanofi, Novartis, GSK, Bristol Myers Squibb, Gilead Sciences, Amgen, Regeneron e Teva.
As economias projetadas, todas pela contabilidade do próprio governo:
- US$ 64,3 bilhões para o Medicaid na próxima década, divididos entre US$ 36,6 bilhões do governo federal e US$ 27,6 bilhões dos estados;
- US$ 600 bilhões em dez anos somando todos os acordos de nação mais favorecida;
- mais de US$ 700 milhões de economia para pacientes pelo TrumpRx.gov, o site de compra direta lançado em 5 de fevereiro de 2026, que segundo a Casa Branca já lista mais de mil medicamentos.
O mesmo documento afirma que as 26 empresas se comprometeram com cerca de US$ 170 bilhões em produção e pesquisa nos Estados Unidos, e credita à política a maior queda anual de preços de remédios em mais de 60 anos.
O que não dá para verificar
Nenhum dos 26 acordos foi publicado, o que deixa os números centrais fora do alcance de qualquer conferência independente. Uma estimativa que circulou na sexta-feira colocava a cifra de dez anos em US$ 529 bilhões, e não em US$ 600 bilhões — uma diferença de US$ 71 bilhões entre duas contas do mesmo conjunto de contratos não divulgados.
A diferença importa porque os descontos não são uniformes. Em reportagem publicada em 17 de setembro, a NPR apurou que os fabricantes não confirmam que os descontos valem para todo o catálogo: a Gilead falou em produtos "selecionados", a Sanofi em "certos" medicamentos, e a Eli Lilly disse esperar que "muitos" de seus remédios entrem. Thomas Hwang, pesquisador da área de preços de medicamentos, alertou na mesma reportagem que as empresas "podem receber crédito público por descontos que na prática são insignificantes".
A NPR também contava 40 estados mais Porto Rico com acordos fechados naquela data — véspera do dia em que a Casa Branca disse que o número havia chegado a 50.
O tamanho do que está em jogo
O Medicaid cobre cerca de 66 milhões de pessoas e gastou aproximadamente US$ 46 bilhões com medicamentos em 2024, alta de 46% em relação a 2019. Esse crescimento é o que torna até um desconto parcial atraente para os orçamentos estaduais — e o que torna consequente a ausência de termos públicos: o estado que adere aceita a precificação do modelo abrindo mão de parte do controle sobre restrições de cobertura, sem conseguir projetar quanto vai de fato economizar.
Duas outras perguntas seguem sem resposta. A primeira é a durabilidade: são acordos voluntários com um governo, não lei, e Trump pediu ao Congresso que os transforme em legislação. Kathy Hempstead, pesquisadora de políticas de saúde da Robert Wood Johnson Foundation, argumenta que parlamentares dificilmente podem codificar acordos cujos termos não viram. A segunda é o alcance: americanos sem seguro e os que têm planos privados não estão cobertos pelo modelo do Medicaid e dependem do TrumpRx ou dos descontos negociados empresa a empresa.
Com informações do documento da Casa Branca de 18 de setembro de 2026, NPR, U.S. News & World Report e ClickOrlando.



