Vinte e cinco deputados democratas americanos pediram ao secretário de Estado Marco Rubio que explique como Flávio Bolsonaro, o senador derrotado no segundo turno da eleição presidencial brasileira, obteve vistos dos Estados Unidos para si e para a família poucos dias depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) determinar a entrega de seus passaportes.
A carta está datada de 29 de outubro de 2026 e foi divulgada em 30 de outubro pelo gabinete da deputada Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, que a encabeçou junto com a deputada Dina Titus, de Nevada. Entre os outros assinantes estão os deputados Joaquin Castro, Greg Casar, Pramila Jayapal, Rashida Tlaib e James McGovern. Vários integram o Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes.
Trata-se de uma carta de indagação, e não de uma intimação. Ela pede respostas por escrito e uma reunião técnica com assessores até 13 de novembro.
O que os parlamentares querem saber
A carta apresenta uma lista de perguntas. Pergunta se o State Department (o Departamento de Estado americano), a embaixada dos EUA no Brasil ou qualquer outra agência americana ajudaram Bolsonaro a viajar e a entrar nos Estados Unidos apesar da restrição imposta pela Justiça brasileira; quando o departamento soube da decisão sobre os passaportes e se algum funcionário teve acesso a ela antes de sua saída; qual foi a base legal e quais categorias de visto foram usadas; e se algum visto foi aprovado, acelerado ou renovado durante o período eleitoral.
Pergunta também se autoridades americanas auxiliaram com voos, documentos de viagem ou acesso a aeroportos, se autoridades na Argentina ou no Equador ajudaram a coordenar o itinerário e se houve articulação com o Department of Homeland Security (DHS, o ministério da Segurança Interna), com a Customs and Border Protection (CBP, a agência de alfândega e fronteiras) ou com o Departamento de Justiça.
Os parlamentares escrevem que têm um "legítimo interesse de fiscalização" em saber se recursos americanos foram usados para viabilizar a viagem. "A transparência é particularmente importante quando os fatos relatados envolvem um processo judicial estrangeiro", diz a carta, que questiona "se recursos diplomáticos e de imigração dos EUA foram usados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira".
O que o governo americano disse
O Departamento de Estado não respondeu a pedidos de comentário sobre a carta, e até 31 de outubro nenhuma resposta havia sido divulgada. A Casa Branca encaminhou as perguntas sobre eventual participação oficial ao próprio departamento e à CBP.
O DHS, que supervisiona a CBP, não tratou diretamente dos relatos de participação do governo. Afirmou apenas que Bolsonaro chegou ao sul da Flórida com a família, foi inspecionado pela CBP conforme as leis de imigração aplicáveis e liberado em seguida.
Um funcionário graduado do Departamento de Estado, sob anonimato, havia dito à CBS News que a família receberia vistos. Perguntado sobre a viagem na quarta-feira, 28 de outubro, Trump disse que a autorização havia sido concedida e que aprovava: "Para mim estaria tudo bem", afirmou, chamando os Bolsonaro de "gente boa". Dias antes, havia sugerido, sem apresentar provas, que a eleição brasileira foi "fraudada".
Como ele chegou a Miami
Bolsonaro perdeu o segundo turno de 25 de outubro para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que recebeu mais de 64 milhões de votos contra menos de 60 milhões — diferença de perto de quatro pontos percentuais. A decisão do STF que o obrigava a entregar os passaportes comum e diplomático foi assinada no mesmo dia, sob sigilo, e ele foi notificado em 26 de outubro, em frente à casa do pai, com prazo até o meio-dia de 27 de outubro.
Ele deixou o Brasil naquele dia, com a mulher e duas filhas. A autoridade migratória argentina informou que a família atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50 e embarcou num voo fretado 40 minutos depois, com plano de voo para Guayaquil, no Equador. Uma aeronave com as mesmas características pousou lá por volta das 4h e seguiu para o aeroporto executivo de Opa-locka, na região de Miami, onde ele chegou na manhã de 28 de outubro. O porta-voz da Presidência argentina, Adrián Ravier, disse que não houve pedido de asilo no país.
Em carta publicada no X, Bolsonaro afirmou que se mudou para os Estados Unidos "diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil" e que "não fugiu do Brasil". Ele é alvo de duas investigações no STF por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal; seu mandato de senador — e com ele o foro privilegiado naquele tribunal — termina em 31 de janeiro de 2027. Foi recebido por Trump no Salão Oval em maio.
É a segunda carta em um mês de Kamlager-Dove sobre a política americana para o Brasil: em 7 de outubro, ela e o deputado Gregory Meeks, com outros dez parlamentares, questionaram a revogação do visto diplomático do embaixador brasileiro.
Com informações do The Hill, do The Rio Times, da CBS News e da Fortune, que citaram a Associated Press.




