A terceira Cúpula Rússia-África se encerra nesta quinta-feira (29) em Moscou com delegações de 48 dos 54 países africanos, 22 delas chefiadas pelo próprio presidente ou chefe de governo. O encontro, de dois dias, foi aberto na quarta-feira com um Fórum Econômico e Humanitário, e os participantes devem aprovar um plano de ação de parceria para o período de 2027 a 2029.
A cifra que o anfitrião repetiu foi comercial. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que a troca entre a Rússia e os países africanos pode "ultrapassar US$ 50 bilhões num futuro próximo". O volume registrado no ano passado ficou em pouco mais de US$ 27 bilhões, contra cerca de US$ 18 bilhões em 2022 — ou seja, a meta anunciada exige um salto de aproximadamente 85% sobre o patamar atual, depois de uma alta de cerca de 50% em três anos. Putin não deu prazo.
Grãos, fertilizantes e processamento local
O trecho mais concreto da oferta russa é agrícola. Segundo Putin, a Rússia exportou 13 milhões de toneladas de produtos agrícolas para a África nos primeiros nove meses deste ano, e mais de 40 países do continente já recebem grãos e fertilizantes russos — fornecimento que Moscou se dispõe a ampliar.
O presidente russo também disse que o país está pronto a dividir tecnologia, inclusive digital, e a processar matérias-primas africanas dentro da própria África, o que, no seu argumento, gera emprego e arrecadação nos países de origem em vez de exportar o minério bruto. Cerca de 40 mil africanos estudam hoje em universidades russas.
Na parte política, Putin defendeu mais peso para países africanos no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial e se colocou à disposição para projetos conjuntos de infraestrutura de transporte e agrícola.
O contraponto ao Ocidente
O discurso de abertura foi construído contra o que Putin chamou de Ocidente "colonial", acusado por ele de tentar explorar os recursos do continente e de usar o endividamento para travar o desenvolvimento africano. Ele não citou países. Segundo o presidente russo, a presença da Rússia não envolve "exploração neocolonial predatória" de recursos naturais e humanos.
Governos ocidentais fazem a acusação inversa: a de que forças paramilitares russas sustentam juntas militares no continente — o caso mais citado é o do Mali — para ampliar a influência de Moscou e empurrar para fora antigas potências coloniais, entre elas a França. A Rússia nega.
Quem foi, e o que a cúpula representa
O presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, falou em nome da União Africana. O presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, chegou a Moscou na quarta-feira e discursou na sessão plenária desta quinta, com reunião bilateral prevista com Putin.
É a terceira cúpula do formato, criado em 2019 com um encontro em Sóchi e repetido em 2023 em São Petersburgo. Para Moscou, ela cumpre uma função que vai além do comércio: a de mostrar que o país mantém interlocução ampla fora do Ocidente, quase cinco anos depois do início da guerra na Ucrânia e das sanções que vieram com ela.
Com informações de Reuters, CNBC Africa, SABC/Channel Africa e Daily News Egypt.



