Nenhuma cédula estadual americana trazia o tema dos data centers em 3 de novembro. Ainda assim, o setor teve uma das piores noites de qualquer grupo de interesse no país.
Em pelo menos 10 estados, moradores votaram dezenas de emendas a leis orgânicas municipais, questões de zoneamento e referendos sobre empreendimentos voltados aos galpões de servidores que sustentam a inteligência artificial. De 41 consultas locais desse tipo, os eleitores aprovaram restrições ou derrubaram propostas favoráveis às obras em 40, segundo levantamento do Ballotpedia e resultados compilados pela CNBC. O Washington Post contabilizou pelo menos 38 jurisdições que aprovaram medidas limitando ou bloqueando de vez as instalações.
As margens não foram apertadas. Em Ohio, onde vários distritos e vilas levaram emendas diretamente aos moradores, números não oficiais dos condados mostram uma restrição à construção aprovada em Defiance com 64,73% dos votos a favor, em Pataskala com 73,62% e em Granville com 82,45%. Em Ashville, um referendo foi rejeitado por 81,61% a 18,39%.
Apenas um resultado local favoreceu o setor. Em Harwood, no Dakota do Norte, cerca de três quartos dos eleitores recusaram restrições propostas ao desenvolvimento industrial.
As eleições de governador disseram a mesma coisa
O padrão se repetiu nas disputas em que o cargo, e não a pergunta, estava na cédula.
No Texas, a democrata Gina Hinojosa derrotou o governador Greg Abbott depois de fazer campanha explicitamente pela interrupção das obras. Em vídeo publicado em 22 de outubro, ela prometeu "decretar uma moratória — uma proibição — de todas as aprovações de data centers", e mantê-la até que a Assembleia Legislativa estadual aprove o que chamou de proteções reais para que os texanos tenham lugar à mesa. Sua plataforma também prevê exigir mão de obra sindicalizada nos canteiros, proteger o abastecimento de água local, encerrar os incentivos de imposto sobre vendas concedidos pelo estado aos projetos e proibir as operadoras de usar acordos de confidencialidade.
Ela vai herdar um congelamento, não criar um. Abbott suspendeu as aprovações a partir de agosto, primeiro no operador da rede elétrica estadual e depois na agência de licenciamento ambiental, para que informações sobre os projetos fossem auditadas e reunidas. A expectativa era de que a auditoria se estendesse até dezembro. Hinojosa assume em 19 de janeiro, e a Assembleia Legislativa se reúne no mesmo mês — o que significa que as aprovações no maior mercado de data centers do país podem seguir travadas por boa parte de 2027.
Ohio elegeu Amy Acton, democrata que defende uma moratória e regras mais rígidas. Na Geórgia, a governadora eleita Keisha Lance Bottoms fez da responsabilização dos empreendedores um tema central da campanha.
O setor já vinha perdendo terreno antes da votação. A oposição pública atrasou ou cancelou mais de 145 projetos no país até o início de agosto, segundo dados da S&P Global citados pelo Washington Post, e a resistência local respondeu pela maior parte desses casos. Pesquisa pré-eleitoral do Washington Post com a ABC News e o Ipsos apontou que sete em cada dez americanos — incluindo a maioria dos republicanos — eram contra novas construções de data centers em suas próprias comunidades.
Um número complica o quadro. Pesquisa de boca de urna indicou que 56% dos eleitores consideraram IA e data centers um fator importante ou decisivo em seu voto, o que soa esmagador até ser posto em ordem: o tema ficou em último lugar entre cinco, atrás de corrupção no governo, da guerra no Irã e do custo de vida. Data centers não decidiram a eleição. Eles perderam nas cédulas em que apareceram.
A OpenAI paga a conta de luz
A resposta das empresas veio em menos de 48 horas, e é específica de um jeito que respostas setoriais normalmente não são.
A OpenAI anunciou que vai pagar o custo integral da energia dos data centers que possui e opera, consultar as comunidades antes de construir, divulgar suas plantas de obra e parar de assinar acordos de confidencialidade com autoridades públicas. A empresa também lançou um documento de políticas pedindo que legisladores transformem esses padrões em lei para todo o setor — texto que, segundo relatos, estava em preparação desde agosto, ou seja, desde antes da votação que o fez parecer urgente.
Cada um dos quatro compromissos responde a uma queixa concreta. A conta de luz responde ao temor de que consumidores residenciais subsidiem a demanda industrial. O fim dos acordos de sigilo responde à reclamação de que câmaras municipais negociam com os empreendedores sob cláusulas de silêncio e não podem contar aos eleitores o que assinaram — prática que Hinojosa prometeu proibir no Texas.
A Meta foi menos conciliadora. Em painel na conferência de tecnologia do Wall Street Journal na quarta-feira, a presidente da empresa, Dina Powell McCormick, afirmou que as vitórias democratas nas eleições de meio de mandato vão dificultar a construção de data centers, e que o setor não fez o suficiente para explicar seus benefícios. "A manifestação visível da IA é um data center", disse ela — o prédio é o que as pessoas conseguem ver e, por isso, absorve o que elas sentem sobre a tecnologia.
Ela descreveu o que a Meta considera um projeto bem-sucedido: a empresa paga sua própria energia, direciona o excedente de arrecadação a professores e socorristas, contrata localmente e obtém apoio dos dois partidos. Disse também esperar que os projetos futuros passem a ser avaliados pelo critério de os eleitores quererem ou não aquela obra. A Meta opera data centers em 23 estados e tem cinco planejados com um gigawatt ou mais, incluindo um no Texas.
A entidade do setor seguiu a linha mais estreita. "Custo de vida, empregos e economia são prioridades para os americanos em todo o país", disse Dan Diorio, da Data Center Coalition (associação que representa o setor), argumentando que as instalações geram empregos, arrecadação local e investimento.
Esse é o argumento que as urnas acabaram de testar. Em 40 dos 41 lugares em que os eleitores foram consultados, ele não se sustentou.
Com informações de Fox Business, TechCrunch e The Texas Tribune, e dados de consultas e projetos compilados por Ballotpedia, CNBC, The Washington Post e S&P Global conforme citados nessas reportagens.




